Calculadora do Veneno: Limite máximo de resíduos (LMR)

Vimos anteriormente como funciona a IDA (ingestão diária aceitável). Agora é hora de falar sobre o indicador LMR.

Considerando a pauta do artigo, convenhamos, o nome do parâmetro fala por si só. Ele estabelece a quantidade máxima de veneno que pode ter no alimento, sem que haja qualquer risco ao consumidor. Um indicador expresso em miligramas por quilo (mg/kg). Ou seja, quantos miligramas de veneno pode ter para cada quilo do alimento, sem “dar pau”, ou o termo bonito, intoxicação. Sendo prolixo e repetitivo, gostaria de destacar o verbo “poder”, e que, portanto, coloca uma possibilidade e não uma obrigatoriedade, além de todo o conceito do Paracelso e, não menos importante, a dimensão do parâmetro. Pequena. Bem pequena.

É importante também não confundir as bolas. Uma coisa é o quanto você pode ingerir de determinado aditivo, sem que haja problemas. Isso é o IDA. Outra coisa é o quanto pode ter deste mesmo aditivo no seu alimento. Esse é o LMR. Relacionando os dois, tem-se uma relação de risco clássica, contrastando o perigo com a exposição. No caso de comida, isso expressa a quantidade de determinado alimento a ser consumido para atingir o limite máximo estabelecido, conforme ilustração. Lembrando, ainda, que o IDA está sujeito ao peso corporal, como mencionado anteriormente.

Ao contrário do IDA, que é único por ingrediente ativo, o LMR é variável, existindo vários para um mesmo produto. Essa versatilidade, vamos dizer assim, se dá em função das diferentes possibilidades de uso do produto, especialmente no que diz respeito às culturas autorizadas para utilização e respectivas dinâmicas de interação. Consultando novamente o painel da Anvisa, vou utilizar o mais eclético dos aditivos como exemplo, o “Rodrigo Hilbert da venenada”, o Teflubenzurom. Um inseticida regulamentado para uso em 86 culturas, com 10 diferentes LMR´s, indo de 0,01 a 2 mg/kg. É um veneno de A a U, indo de abacaxi até uva (não podia perder a piada). E por que isso? Porque o mesmo inseto, ou a mesma classe de inseto, come 86 diferentes culturas, competindo, portanto, com a produtividade e viabilidade econômica das respectivas produções.

Restringindo um pouco mais a análise e respeitando os mesmos preceitos e cuidados na interpretação já elencados anteriormente, é ilustrado na figura a seguir, para as principais classes de defensivos, a distribuição por intervalos de valores dos LMR´s. Como se observa, 80% dos limites máximos estabelecidos estão abaixo 0,50 mg/kg, com maior concentração, inclusive, entre 0 e 0,05 mg/kg. Ou seja, utilizando-se o teto deste intervalo, se forem detectados resíduos acima de 0,00000005 kg do ingrediente ativo para cada 1 kg de alimento, o material está acima do limite estabelecido e, portanto, impróprio para consumo. Você consegue imaginar esse rigor?

Como você percebeu, o acervo de LMR´s é extenso. Uma matriz de 3.829 limites estabelecidos, contemplando 283 ingredientes ativos e 155 culturas que, quando relacionados com os respectivos IDA´s e possibilidades de peso, relevam trocentas quantificações necessárias para causar intoxicação. Neste sentido, visando complementar sua imaginação, construí o quadro ilustrado a seguir, que relaciona diferentes cenários de IDA com LMR, resultando nas quantidades de alimento que devem ser ingeridas para se atingir os limites de segurança estabelecidos. Utilizei a mesma referência dos 75 kg de peso corporal, devendo-se lembrar que gordo aguenta mais veneno. Portanto, quanto maior o peso, maior o valor calculado.

Tomando-se como exemplo os valores em laranja, uma pessoa de 75 kg precisaria consumir, em 24 horas, 7,5 kg do alimento em questão, cuja produção foi submetida ao ingrediente ativo de IDA de 0,05 mg/kg pc/dia e LMR para a cultura de 0,50 mg/kg, para estar acima do limite estabelecido e, portanto, estar sujeito a intoxicação. Possível? Sim. Provável? Deixo você tirar suas próprias conclusões. Se ajudar, imagine que a cultura em questão é alho 🙂

Analisando o quadro, fica clara a relação de risco. Quanto menor o IDA (portanto, mais tóxica é a substância) e maior o LMR (portanto, mais exposição), menores são as quantidades necessárias de alimento para causar intoxicação. Posto de outra forma, quanto maior o perigo e maior exposição, maior é o risco de intoxicação. Clássico, não é?

É possível identificar, ainda, zonas tangíveis e intangíveis de intoxicação. Não quero cravar aqui um referencial, pois gostos e realidades são particularidades, mas acredito não ser comum uma pessoa comer em um único dia (acho que vou exagerar, mas vamos em frente) mais do que 1 kg ou 1,5 kg de um mesmo alimento. Apenas como comparativo, em média, uma pessoa adulta come cerca de 3 kg de comida por dia, considerando todas as refeições e variedades de alimento. Sendo assim, de maneira simplificada e com foco no racional e nem tanto nos valores, apenas os ingredientes ativos com IDA menor que 0,01 mg/p.c./dia e LMR acima de 0,50 mg/kg poderiam oferecer um risco mais iminente de intoxicação. E eu contei na base. Tem 263 casos que se enquadram nesta “zona tangível” dos 3.829 limites. Portanto, cerca de 7%.

“Então essa é minha chance de intoxicação? Porra, 7% é alto! A cada 100 refeições que faço, posso começar a espumar a boca em 7 delas! É isso?”. A resposta vai no tom que minha mãe chamava a atenção (e ainda chama): ENE A Ó TIO! NÃO! Se isso fosse válido, você já teria batido a caçoleta faz tempo, concorda? E como você está lendo este artigo, aparentemente está bem vivinho. Muitos então, pode-se dizer, estão como o autor que vos escreve, com um grau a mais de nutrição.

Acontece que os cálculos realizados até então, que estão naquela tabelinha ilustrada e colorida que apresentei, levam em consideração um cenário com 100% de alimentos contaminados, com resíduos atingindo os limites estabelecidos para intoxicação. Você não leu errado. É isso mesmo. As possibilidades colocadas, como visto, já beiram o absurdo em mais de 90% dos casos, precisam ainda estar sujeitas a uma probabilidade de contaminação. Esta, ressalta-se, com valores acima do permitido.

E agora, o gran finale da nossa calculadora do veneno. Quanto você acha que é esta probabilidade? Quantos % dos alimentos que chegam à nossa mesa estão contaminados com resíduos acima do permitido? 10%, 20%, 30%? Se você seguir algum dos cientistas do Projac ou influencer metido a toxicologista, é provável que ache que isso beira uns 100%. “O veneno está na mesa”, como propagam muitos dos stories.

Esse número, meu caro leitor, é de 6%. Sim, de acordo com o relatório do PARA, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos da ANVISA, que tem por objetivo acompanhar de forma contínua os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos de origem vegetal que chegam à mesa do consumidor, apenas 6% das amostras apresentaram irregularidades. Um número que vem se mantendo em torno deste patamar desde 2009, ano do estudo cuja organização clara e padronizada permitiu uma análise evolutiva. Aliás, diga-se de passagem, um estudo técnico, científico, oficial, alinhado com padrões internacionais. E não um número cabalístico, ideológico ou tirado de uma live de um artista qualquer metido a especialista. Enfim, não vou gastar muitas linhas nem tampouco mais do seu tempo falando sobre este número, pois já o fiz em outro artigo relacionado, o “Pode comer tranquilo, sua comida continua não estando envenenada“.

Aplicando este índice na simulação anterior, como sendo o resultado de uma “probabilidade de risco”, temos a ilustração a seguir, cuja interpretação segue o mesmo racional da tabelinha anterior. Como você pode notar, o que já era absurdo, foi turbinado. Mesmo os valores da então classificada “zona tangível” se tornam insensatos. É por isso que nunca na história, no mundo todo, houve qualquer morte associada a agrotóxicos por resíduos em alimentos. Leia atentamente a frase, pois não estou dizendo que nunca houve mortes associadas a agrotóxicos. Sim, houve.

Não vou entrar em detalhes neste assunto, mas, se tiver curiosidade, visite o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX), que tem como principal atribuição coordenar a coleta, a compilação, a análise e a divulgação dos casos de intoxicação e envenenamento notificados no país. Pra facilitar sua vida, dá uma espiada nesta tabela, de 2017 (último dado nacional disponível). Veja quantos casos tem relacionado a ingestão de alimentos. Ah! E graças a pesquisas e evolução tecnológica, a toxicidade e, consequentemente, os riscos e toda ladainha que conversamos até então, vem caindo. Além do fato de que muitos produtos – claro, esta uma característica desenvolvida – proporcionarem vômito antes de uma possível intoxicação geral e morte.

Também não vou colocar aqui um desafio de que “quem conseguir comer 8 kg de alimento, cuja produção foi submetida à pulverização de IDA de 0,01 e LMR de 1,50 vai ganhar um carro!”, porque são nestas situações, de desafiar o Paracelso e brincar com a dose, que dá merda. Basta você dar um Google aí que vai encontrar os casos – como o exemplo da água, mencionado lá em cima. Uma atividade, olha que bacana, tradicional em alguns locais, como a Austrália, são as “competições gastronômicas”, como chamam. Esse ano mesmo uma senhora já foi pro saco de tanto comer bolo. Não sei do que ela morreu, mas uma coisa é certa, por resíduo de agrotóxico é que não foi.

Obs.: Pra você, que não morreu envenenado, mas que de tédio correu o risco, menciono que há ainda uma versão audiovisual deste artigo.

João Rosa (Botão) é professor do Pecege e idealizador do canal do Youtube Botão do Excel.