Calculadora do Veneno: primeira parte

“A diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. É muito provável que você já tenha ouvido esta famosa frase. Seja em alguma aula de química ou biologia na educação básica ou mesmo durante aquelas discussões filosóficas que acontecem em churrascos, de modo que este, possivelmente, é um dos principais apelos do “defensor do agro” ao argumentar que a comida não está envenenada.

Associada no século XVI ao multifacetado Paracelso, cujas atribuições vão de médico a charlatão, a sentença determina um paradoxo na tratativa cuidar ou matar, estabelecida por uma orientação de quantidade – a dose. Algo que se você buscar na etimologia das palavras, remete a algo bem mais antigo que nosso querido Paracelso e, vejam só, tem por origem o amor. Na mitologia romana, em nome de uma certa deusa, se fabricavam poções para despertar a paixão, em uma forma de cuidar do amor. Entretanto, quando exageradas na dose (olha só), tais substâncias se tornavam tóxicas ao nosso candidato apaixonado. Essa deusa era Vênus. Daí o termo venenum, do latim. Origem do termo veneno.

Mais de 500 anos se passaram desde Paracelso. E muito mais tempo se passou da idolatria por deuses da mitologia. Mas, independentemente de qual ótica histórica você considera, seja pela mais concreta, com registros que de certa forma compõe a base da medicina, ou em uma versão mais fantasiosa, com poções e deuses, uma coisa é certa: a dose é o determinante. Algo válido para toda e qualquer substância, inclusive aquelas mais corriqueiras e essenciais à sobrevivência de uma determinada espécie, como água. E não me refiro à morte por afogamento clássico ou qualquer aspecto relacionado à qualidade da água. Mas sim intoxicação por excesso de consumo.

Um conceito antigo, porém negligenciado por muitos “especialistas” quando se discute o uso de agrotóxicos na produção agrícola. Um termo que por si só faz nosso querido Paracelso se mexer no túmulo, afinal, não dá o direito da escolha, o direito da dose. Já carrega uma conotação pré-concebida: tóxico. Algo inimaginável, por exemplo, se fizermos um paralelo com remédios em uma farmácia.

Mas o propósito deste artigo não é discutir como os argumentos contrários ao uso de defensivos agrícolas tangenciam, em sua maioria, questões ideológicas, nem tão pouco contestar qual termo é o mais adequado ou não (acho que deu para perceber pelo título do artigo). Chame como quiser. A ideia do material é apresentar de maneira simples e prática os conceitos e metodologias que pautam a discussão de resíduos de agrotóxicos, em especial, nas quantidades para causar intoxicações. De modo que de posse um Google – para encontrar bulas – e algumas regras de três, você vai conseguir calcular quanto de agrotóxico tem na sua comida e estimar os riscos de intoxicação. Essa é a “Calculadora do Veneno”.

Ingestão diária aceitável (IDA)

O racional da calculadora se inicia pela compreensão do parâmetro IDA, que significa Ingestão Diária Aceitável. O termo é bastante sugestivo, estabelecendo uma quantidade estimada de um aditivo alimentar que pode ser ingerida diariamente, durante toda a vida, sem oferecer risco à saúde. É um jeito bonito e acadêmico de descrever uma dose que não vai “dar pau” no consumo. E, ainda que a descrição oficial remeta a “aditivo alimentar”, que no caso deste artigo pode ser entendido ingrediente ativo ou essência do veneno, tem-se, na verdade, um IDA para tudo, certo? Meio que já discutimos isso usando a água como exemplo.

O IDA, assim como qualquer outra variável descrita neste artigo, são estabelecidos por órgãos subordinados às Nações Unidas, como Food and Agricultural Organization (FAO), World Health Organization (WHO) e o CODEX Alimentarius Mundial, por meio do seu Comitê de Resíduos de Pesticidas em Alimentos (CCPR). Portanto, instituições sérias, com rigor técnico e alinhamento internacional. Procedimentos pautados, como descrevem os documentos, “à luz dos conhecimentos científicos disponíveis na época da avaliação”. Algo longe de ideologias e estudos de fundo de quintal.

Não vou entrar em detalhes de como se chega no IDA, mas, em resumo, ele é determinado a partir da menor dose que causou algum efeito nas cobaias analisadas, recebendo o nome técnico de NOEL (nível sem efeito observado). Eu sei, meio chato de entender, mas vamos lá. Durante os testes são administradas doses crescentes do ingrediente ativo que – lembra do Paracelso – a partir de determinada quantidade vai incorrer em efeitos em quem recebeu a substância. No momento em que há a virada do “sem efeito” para “causou algum efeito”, determina-se o NOEL, que é um ponto de mínimo na relação.

As cobaias inicialmente submetidas aos testes são as clássicas, ratos e camundongos (por favor, deixem os xingamentos quanto o uso de animais em experimentos para outros artigos. O foco deste é veneno na comida). Portanto, ainda que apresentem semelhanças metabólicas com humanos, não são humanos. Além disso, tem-se a questão da incerteza científica, algo relacionado ao acaso, ao desconhecimento, à probabilidade, e qualquer outro termo que compactue com a imprevisibilidade do processo. Ou seja, ainda “pode dar cagada”.

Em função desse contexto, com o intuito de mitigar qualquer risco no consumo, divide-se o valor mínimo encontrado por um fator de segurança, que é 100! Em uma analogia, funciona como os coeficientes de segurança na construção civil. Ou seja, o prédio ou casa que você mora, em teoria e seguindo-se as devidas normas técnicas, está dimensionado para suportar muito mais peso do que realmente tem. Não vou me arriscar a citar quais são estes coeficientes, pois sei que variam de acordo com o material e, sinceramente, “não é minha praia”. Mas sei que qualquer solução, independente do segmento que for, que envolva segurança do consumidor, está sujeita a um “fator de cagaço”. No caso de defensivos agrícolas este fator é 100.

O resultado disso é que, felizmente, os parâmetros de IDA´s dos defensivos agrícolas são baixíssimos, expressos em miligramas por peso corporal por dia (mg/kg pc/dia). Em uma análise mais quantitativa, pode-se dizer que cerca de 80% dos fungicidas, herbicidas e inseticidas – portanto, as principais classes de defensivos – apresentam IDA menor que 0,05 mg/kg pc/dia (calma, falo da fonte dos dados no parágrafo a seguir). Dessa forma – e de maneira exagerada, utilizando o “teto” do intervalo – uma pessoa de 75 kg, pode (do verbo poder, o que não significa necessariamente que ela vá) ingerir diariamente, durante toda a vida, 3,75 mg/dia desta substância, sem que isso implique em qualquer risco à saúde. Algumas reflexões: i) Sim, gordo aguenta mais veneno; ii) Você consegue imaginar quanto é 3,75 mg? É 0,00000375 kg. O equivalente ao peso médio de uma formiga.

Cálculo IDA

Evidente que esta é uma análise genérica, concedendo uma visão abrangente da temática, não estando integralmente correta. Cada substância tem uma característica, uma maneira de agir e, evidentemente, uma letalidade. Portanto, a avaliação deve ser – e assim o é – realizada individualmente. Cada ingrediente ativo tem seu IDA. Esta e outras informações pertinentes constam nas respectivas monografias técnicas que, desde o final de 2019, estão organizadas e disponíveis no Painel de Monografias de Agrotóxicos da ANVISA (aliás, meus sinceros parabéns!). Sendo esta a base das minhas análises.

Em uma avaliação complementar ao número apresentado na primeira parte deste artigo, de modo a evitar qualquer caracterização cabalística, na figura a seguir é ilustrada uma distribuição de frequência de 226 ingredientes, sendo classificados ainda pelas principais classes agronômicas e intervalos de valores.

É válido ressaltar, ainda, que restringi minhas observações às substâncias indicadas para o uso agrícola e com IDA disponível. Aditivos destinados ao uso domiciliar, não agrícola, ambientes aquáticos e preservantes de madeira foram deixados de fora. Sobre aqueles ingredientes cujas IDA´s não estão disponíveis, não há um motivo único absoluto que justifique. Existem particularidades. Seja pelo fato de a disponibilização desta informação ser relativamente recente, de modo que produtos antigos ou que não passaram por alguma alteração de processo – como reavaliação ou inclusão de culturas autorizadas – não o tem, ou por simplesmente não serem considerados tóxicos, como alguns produtos biológicos. Se você tiver curiosidade de acessar a base, vai encontrar, ao todo, 494 monografias de agrotóxicos (valendo a data de 19/05/2020, que foi quando fiz a análise).

A unidade de expressão do IDA – miligramas – é importante não somente para você saber o quanto pesa uma formiga, mas, também, para revelar o rigor com que os ingredientes são tratados. Posto de outra forma, basta uma quantidade ínfima do aditivo para que haja restrição ao uso. Uma tratativa, novamente (e reforço, ainda bem!), muito segura. Uma segurança negligenciada pelos críticos dos agrotóxicos. Um julgamento raso do ponto de vista técnico, mas profundo em hipocrisia.

Explico o porquê. Vamos considerar a classe dos fungicidas que, como o termo sugere, são substâncias utilizadas para combater fungos. Estes organismos fantásticos, usados em larga escala na produção de alimentos e bebidas, além da indústria farmacêutica, mas que em muitos casos, não são desejáveis e causam injúrias. Injúrias estas causadas em plantas, mas também em outros seres, como nós, humanos. Pois bem, em ambos os casos, quando estão causando “prejuízo”, o que vamos fazer? Cuidar, certo? No caso das plantas, vamos seguir toda ladainha agronômica, contada em partes neste artigo, aplicando um veneno da classe dos fungicidas, enquanto nos seres humanos, vamos proceder com tratamento médico por meio de um remédio. Mas como disse anteriormente, não quero discutir a “picuinha” do termo. Quero ir um pouco mais a fundo na fábula fajuta.

Os ingredientes ativos, aditivos, “essências da poção” em homenagem a Vênus, utilizados nos fungicidas – claro, quando visam combater espécies semelhantes – têm por origem o mesmo princípio. Ou seja, o elixir do agrotóxico que você chama de veneno é mesmo do remédio que você chama de cura. Com uma diferença simples (agora o Paracelso vai à loucura!): a dose do remédio que você toma diretamente pode vir a ser muito maior do que o eventual resíduo do alimento!

Não acredita? Então vamos de evidência. Procure no Google a bula do agrotóxico-veneno Ciproconazol, um fungicida de classe III (considerado medianamente tóxico, o que é papo para outro artigo), pertencente ao grupo químico Triazol. No documento, procure seu respectivo IDA, que como você vai ver, é de 0,01 mg/kg pc/dia. Portanto, considerando os mesmos 75 kg utilizados anteriormente, encontra-se o valor de 0,75 mg/dia. Não preciso relembrar do quão pequeno é nosso “sinalizador” de limite, certo?

Pois bem, volte ao Google e procure a bula do remédio Fluconazol, um medicamento utilizado no tratamento de doenças fúngicas, como dermatomicoses (pé de atleta, frieira e outros “gorgonzolas” que podem aparecer), do grupo farmacoterapêutico (bem menos agressivo, certo?) Triazol.

Pois é, qualquer semelhança não é mera coincidência. Estamos falando de praticamente a mesma coisa, com modos de ação e finalidades iguais. Neste caso, contudo, você não vai encontrar um IDA na bula. Pelo menos, não descrito desta maneira. Vai encontrar uma prescrição de quanto tomar, como tomar, por quanto tempo tomar, enfim, uma bula clássica de remédio. Evidentemente, se você exagerar, pode dar merda.

Mas nem é esse o ponto para o qual quero chamar atenção. Quero que você observe a dosagem do medicamento, 150 mg. E agora, como você deve estar imaginando, vamos aos cálculos. Considerando a mesma pessoa de 75 kg, ao administrar uma dose única do remédio (recomendação da bula), ela estará ingerindo o equivalente a 2 mg/kg de peso corporal. Em uma pancada só! 200 vezes mais se tomarmos como referência o IDA estabelecido na bula do agrotóxico, cujo grupo químico é o mesmo! Algo que, dependendo do tratamento, pode se estender em 12 meses, com administração de doses semanais ou mensais.

Por favor, o que quero mostrar é o comportamento hipócrita que muitos de nós temos de “dois pesos e duas medidas”. Não me venha achar que estou insinuando que tomar um “cházinho de agrotóxico” é melhor do que tomar remédio, ou qualquer outro absurdo relacionado. Nem que sou contra qualquer uso de medicamentos ou coisas do gênero. Pelo contrário. Em sua evolução, a humanidade passou por duros processos para chegar onde está, conquistando de maneira contínua melhores condições de sobrevivência, entre outros aspectos. Ficar criticando as atuais soluções é sacanear o sofrimento e capacidade dos nossos antepassados. Evidente que muitas delas não são as ideais, pelo menos, não à visão de muitos. Justamente por isso que o processo é contínuo (mas isso é papo para outro artigo). No caso da proteção de cultivos, não é diferente.

Voltando ao racional do veneno, ter conhecimento do conceito da IDA e saber que pequeníssimas quantidades vão limitar o consumo não significa que seu alimento vai estar seguro, meu querido leitor. Aliás, não sei se você reparou, mas até então não falamos nada de comida. Falamos simplesmente da toxicidade das substâncias e do quanto você pode ingeri-las sem dar nenhum “pau”. O relacionamento com seu rango e a próxima fase da “Calculadora do Veneno” começa daqui em diante, com o estabelecimento do limite máximo de resíduos (LMR).

João Rosa (Botão) é professor do Pecege e idealizador do canal do Youtube Botão do Excel.