What The Health é sobre comida ou religião?

Eu finalmente assisti o documentário What The Health. Nada de surpresa. Um enredo parcial, construído a base do medo, em que as atividades relacionadas à produção/consumo animal, que estão mancomunadas com a indústria farmacêutica e o sistema como um todo, são a causa de todo o mal.

Contudo, não pretendo neste artigo contra-argumentar os pontos científicos do material ou investigar seus participantes, pois isso seria chover no molhado. Minha linha de raciocínio vem em questionar a credibilidade do documentário, traçando um paralelo com religião e ideologismo da causa.

O primeiro aspecto é construção demonizada daquilo que vai contra o que você prega, o que é típico das religiões mais fanáticas. Se não é “o seu” ou “do seu jeito”, não é correto e deve ser eliminado. No caso, é a jihad contra o consumo de carne, leite, ovos etc., afinal, ele é a raiz do mal.

Salvo alguns relâmpagos em que palavras como equilíbrio e consumo consciente aparecem, no geral, é NÃO. NÃO pode, NÃO precisa e ponto final. E nesse processo de “conscientização”, o documentário traz o testemunho de alguns fiéis, que depois de se converterem, alcançaram feitos fantásticos.

A seguir e, de forma repetitiva, pincei alguns trechos milagrosos do documentário (e se não acreditar, fique à vontade para assistir):

Michael Abdalla, 69 anos, aparece no minuto 7:29

É diabético há dez anos, dois stents implantados (não sei exatamente o que é, mas é para o coração) e está insatisfeito com a quantidade de remédios que toma (16 ao todo, confira no minuto 59:43) para o tratamento do diabetes, auxílio para urinar, próstata, coração e pressão arterial. No trecho 1:22:03, já vegano, ele volta disposto, sorridente e 13 kg mais magro. Cortou os remédios e a insulina pela metade, com o intuito de cortar tudo futuramente. Um novo homem.

Amy Resnic, 51 anos, aparece no minuto 12:23

Asmática, tem alto risco de evento cardíaco, de modo que em uma escala de 0 a 3, declarou um índice de 10,82, afirmando que o enfarte nos próximos 30 dias era quase certo. Contei 7 remédios em sua bancada, ministrados para dores musculares, estresse etc. No momento 1:18:23 ela volta, vegana. Depois de apenas duas semanas (14 dias, como ela enfatiza), não precisa mais tomar remédio para asma, antidepressivos, analgésicos, remédio para o coração, nada. Nenhum remédio. Curada.

Jane Chapman, 61 anos, aparece no minuto 28:52

Tem osteoartrite bilateral de quadril, apresentando dificuldade para caminhar, fazendo-o, inclusive, com andador. No minuto 59:19 ela aparece novamente, onde é possível contar cerca de 20 diferentes tipos de remédios/suplementos, sendo dois remédios para pressão alta, seis para asma, outros que ajudam a cuidar dos efeitos colaterais dos outros remédios, antidepressivos e medicamentos para dores. Finalmente, no 1:12:53, ela retorna, vegana. Aparentemente mais magra, disposta, andando sem apoio “pela rua, curtindo o ar fresco, a luz do sol” (palavras dela). E tudo isso em apenas duas semanas de conversão.

Ruby Lathon, não informou idade, aparecendo no minuto 1:15:01

Teve câncer de tireoide. Não quis remover a mesma e tentou métodos alternativos. Virou vegana e depois de um ano o câncer sumiu.

Eu não vou citar os causos dos esportistas que aparecem, que declaram um aumento considerado no desempenho depois que viraram veganos (sinceramente, não sei como os russos não descobriram isso 😉) ou fato do Steve-O (sim, aquele do Jackass), ser um dos garotos propaganda.

Bom, acho que você entendeu onde quis chegar. Pensa comigo, é ou não o mesmo modo de operação dos cultos que você, seja vegano ou não, vê na TV ou ouve no rádio de pessoas que eram pobres, fodidas etc., e que depois de entrar na igreja, conseguiram carro, casa, empresa, blá blá blá. Uma lavagem cerebral que inspira certa indignação da sua parte, fazendo com que seu subconsciente pense: como é que tem trouxa que cai nessa? Afinal, você sabe que as conquistas dos bens ou prêmios elencados nos testemunhos vão muito além de você simplesmente fazer parte do rebanho.

Pois bem, eu te respondo. O bobo que cai nessa, em geral, é o indivíduo carente, sem informação. Que, guardado as devidas proporções, é a mesma coisa do espectador ignorante – no bom sentido da palavra, que assiste o What The Health. Com pouco conhecimento do assunto, vê uma série de dados científicos, que são estrategicamente apresentados entre uma cena chocante e outra e enfatizados por pessoas com PhD na frente do nome. Um thriller de terror diante de nossos hábitos alimentares, seguidos da solução/convite para o paraíso. É um documentário covarde.

O consumo consciente, sem dúvidas, é de extrema importância e deve fazer parte das discussões quanto hábitos alimentares. Agora, o que deve ser respeitado – já que o paralelo é religião – é o livre arbítrio. Cada um pode escolher o quê e o quanto consumir de cada coisa. É pessoal, assim como a fé. O que se diga de passagem, em termos de alimentação, é um aspecto bacana do mundo contemporâneo, afinal, nichos estão se desenvolvendo para todos os gostos (e bolsos).

João Rosa (Botão) é professor do Pecege e idealizador do canal do Youtube Botão do Excel.