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Marina Petrocelli
5 minutos de leitura
Escrito dia 14/12/2020


O Vale da Estranheza é uma teoria diretamente ligada ao desenvolvimento da robótica. Alguma vez você já se deparou com algum robô ou inteligência artificial que te despertasse o sentimento de “uau, isso é estranhamente muito humano”? Se sim, então provavelmente você já esteve nesse abismo.


Desde o primeiro sinal de incômodo com a similaridade de um robô com um humano até a mais profunda repulsa. Esse intervalo caracteriza o Vale da Estranheza, que é chamado de vale justamente porque, se colocarmos o nível de empatia pelas inteligências artificiais em um gráfico, essa teoria seria um ponto mais baixo, cercado por pontos mais altos.

Parece difícil? Mas é mais fácil do que imaginamos. Para deixar tudo mais didático, conversamos com Lucas Guerreiro, professor do curso Python para Gestores da Plataforma Solution e cofundador e Chief Technology Officer (CTO) da Skylar, uma startup de inteligência artificial voltada para tradução e legendagem de materiais e eventos gravados e ao vivo.

Para ficar tudo mais claro

Guerreiro explica que o Vale da Estranheza tem a ver com a evolução da robótica em três pontos:

  • Técnico: inteligências artificiais tendo ações cada vez mais naturais e inerentes aos humanos)
  • Cognitivo: máquinas com inteligência para tomada de decisões
  • Estético: robôs fisicamente parecidos com humanos

Para entender e visualizar o conceito de vale, o professor volta ao princípio da robótica, com os robôs de metais e latarias aparentes. Esses modelos, apesar de tentarem, de alguma forma, replicar o comportamento e inteligência humana, deixam evidente que são apenas máquinas performando de forma similar. Assim, eles ganharam nossa simpatia com o passar do tempo.

“Com o desenvolvimento da tecnologia, a semelhança desses robôs com os humanos começou a aumentar. Assim como nossa empatia por eles”, destaca Guerreiro. Esse processo pode ser visualizado em forma de gráfico como uma crescente considerando nosso nível de empatia.

Contudo, segundo a teoria do Vale da Estranheza, essa similaridade geraria rejeição em determinado ponto. “Isso porque o perfil desses robôs estaria em um limitante que é diferente do que estamos acostumados com as inteligências artificiais e diferente de humanos. Nesse ponto, nosso encantamento se transforma em repulsa e estranheza, fazendo com que a gente perca aquela empatia que desenvolvemos”, comenta.

O professor explica que a tendência é que a aparência dos robôs continue evoluindo para ultrapassar o Vale da Estranheza e continuar ganhando nossa empatia. No gráfico, então, essa teoria seria uma baixa na linha da empatia, que voltaria a crescer.

O ponto de rejeição

“O Vale da Estranheza é o ponto intermediário em que as inteligências artificiais ficam entre a aparência mecânica e humana”, adianta Guerreiro. “Não existe um parâmetro exato para esse ponto, mas ele tende a ocorrer quando a evolução do aspecto físico dos robôs está no limite entre distinguir se ele é uma máquina ou um humano.”

O professor ressalta que o motivo dessa repulsa ainda é estudado por muito pesquisadores de todo o mundo, mas, no geral, ele parece estar relacionado à sua característica disforme.

“O objetivo de quando lidamos com uma inteligência artificial muito similar a um humano é, por alguns momentos, nos esquecermos de que estamos lidando com uma máquina. Quando alguma parte ou comportamento do robô ou da computação gráfica nos tira dessa nossa realidade, notamos algo diferente e saímos daquele conforto momentâneo de lidar com o que é conhecido”, detalha Guerreiro.

Disso vem o medo. Quando percebemos que aquela inteligência não é humana, mas pode se passar por humana em certos momentos, entramos em estado de alerta. “O pensamento de que esses robôs podem atuar como humanos, mas com certas vantagens (sem doenças, fadigas ou emoções, por exemplo), nos causa o medo de sermos controlados por máquinas no futuro.”

Portanto, esses robôs caem no Vale da Estranheza sem conseguir ultrapassar para o nível em que voltamos a nos simpatizar com eles por serem “como nós”. Entre os exemplos de robôs que ficaram nesse abismo, o professor cita o Telenoid R1, um androide japonês criado em 2010, e o robô Diego-San, ativado em 2013.

O controle das inteligências artificiais

Esse medo de sermos controlados por robôs pode ser um fator para que algumas inteligências caiam no Vale da Estranheza. Porém, ele não leva em consideração o quanto nossa vida já é repleta de máquinas e robôs.

“Nas redes sociais, a inteligência artificial está associada a recomendações de amigos, páginas para seguir, conteúdos e, principalmente, propagandas. Toda informação que consumimos (seja curtindo, comentando, seguindo, visualizando ou até mesmo falando em conversas mais particulares) serve para compor um perfil de possíveis coisas relacionadas que podemos gostar, personalizando nossa experiência”, conta.

“Essa característica também pode nos assustar, mas a boa notícia é que as redes sociais têm um compromisso de privacidade, de não nos identificar separadamente. Também podemos retirar nosso consentimento de receber propagandas personalizadas”, completa Guerreiro.

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“Estamos cada vez mais lidando com assistentes virtuais. Ao entrarmos em contato com empresas, somos atendidos por chatbots ou vozes por telefone que, mesmo que gravadas por uma pessoa real, são automatizadas. Acredito que a ideia principal é humanizar esse contato automatizado entre empresa e cliente.”

Personificação das inteligências artificiais

Se estamos hoje aqui falando sobre Vale da Estranheza é porque as inteligências artificiais foram personificadas ao longo dos anos para nos trazer uma experiência mais próxima do real possível.

Segundo Guerreiro, tudo isso começou com a Siri, assistente de voz da Apple. “Foi uma tecnologia revolucionária e pioneira, que agradou aos consumidores de imediato. Eles se sentiram muito mais à vontade para lidar com respostas mais personalizadas. Com isso, o mercado começou a demandar cada vez mais esse tipo de experiência, levando à criação da Google Assistente, a Cortana entre outros.”

Depois disso, o próximo passo foi a criação de robôs ou computações gráficas com um rosto para esses assistentes, trazendo ainda mais semelhança com os humanos, além da possibilidade de interação.

A personificação também é importante para criar a relação de confiança e lealdade com as marcas. “É muito mais fácil nos identificarmos, interagirmos e confiarmos em um humano. Com isso, ao nos depararmos com esses humanoides, que parecem e agem como humanos, a tendência é criarmos um nível muito maior de confiança com a marca representada dessa forma”, ressalta.

O medo é infundado?

Como citado anteriormente pelo professor, os robôs podem ter uma força muito maior que a dos humanos, não se cansam, não precisam dormir ou comer, não adoecem e, por isso, podem ser, fisicamente, mais fortes do que nós.

“O que sempre nos diferenciou dos robôs é a inteligência. Contudo, com a evolução das inteligências artificiais, a capacidade de tomada de decisão dos robôs está cada vez melhor. Isso quer dizer que o alto poder físico aliado a um raciocínio cada vez mais humano gera o medo dessas máquinas se tornarem perigosas em algum nível”, diz Guerreiro.

Mas é fato que as inteligências artificiais são treinadas para executar o que humanos definem para elas. “Boas intenções combinadas com limite e controle do seu avanço representa um cenário seguro. Por isso, regulamentações nesse sentido devem ser propostas nos próximos anos”, conclui o professor.

Você já esteve no Vale da Estranheza e teve esse sentimento de rejeição ao se deparar com alguma inteligência artificial? Conte para a gente!

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