As pessoas e a organização ou a organização e as pessoas?

As pessoas transformam uma organização ou é a organização que modifica as pessoas que nela trabalham?

Tenho visitado algumas empresas para apresentar um pouco mais das soluções educacionais que podemos compartilhar com o time de treinamento & desenvolvimento. Inevitavelmente, me deparo com várias pessoas, com diferentes cargos e funções, ideologias, crenças e valores etc.

O relato que gostaria de compartilhar se refere a uma empresa do setor sucroenergético, localizado no interior de São Paulo. Atualmente, ela possui cerca de 4,5 mil funcionários, dos quais tive a oportunidade de conversar com apenas três: o porteiro, a secretária executiva e a gerente de gente e gestão. A quantidade de pessoas que tive contato é ínfima com relação ao total de colaboradores, mas a educação e cuidado me chamou muito a atenção.

Poderia ser pretensão demais correlacionar esta percepção positiva com o clima organizacional e até mesmo resultado financeiro da empresa. No entanto, pessoas que estão contentes e felizes no trabalho com certeza são mais atenciosas, colaborativas e eficazes com as obrigações e tarefas diárias. E isso se correlaciona positivamente com o bom resultado operacional da empresa.

Independente do aspecto financeiro da organização, o ponto de discussão é como conseguimos “contaminar” as pessoas com simpatia, respeito, alegria e outros adjetivos que andam tão escassos ultimamente.

O background, experiências vividas por cada indivíduo, tem contribuição importante no que cada um de nós somos hoje. Outros fatores externos também contribuem, como o exemplo, a começar pela alta direção; a empatia, nos colocarmos no lugar do outro; o propósito, aquilo que cada um carrega para desenvolver ações que vão além do que proporciona o meio onde vive.

Para o autor Stephen Covey, o fato de trabalhar com propósito está ligado às relações humanas, havendo sempre troca de aprendizado, responsabilidade, respeito e espírito coletivo. Por isso que essa forma de trabalhar é tão importante e apresenta vantagem para as empresas: aumento da produtividade, redução do turnover, maior motivação dos funcionários e melhora na comunicação por meio da redução de ruídos.

A dica de leitura para um maior aprofundamento sobre a temática propósito no trabalho é o livro O 8º hábito: Da eficácia a grandeza, de Stephen Covey. Nesta obra, o autor comenta que não bastam mais as sete disciplinas (seja proativo; comece com o objetivo em mente; primeiro o mais importante; pense ganha-ganha; procure primeiro compreender para depois ser compreendido; crie sinergia; e afine o instrumento) para alcançarmos o sucesso em um mundo de constante mudanças que vivemos.

Para Stephen, o oitavo hábito é sobre ver e dominar o poder de uma terceira dimensão que se junta aos sete hábitos e atende o desafio da nova era do trabalhador do conhecimento. Para ele, o oitavo hábito é a voz do espírito humano, que também abrange a alma da organização que sobreviverá, prosperará e terá impacto profundo no futuro do mundo. Apesar da teoria ser clara e objetiva com os conceitos, os pontos que ficam para discussão são: conhecemos nossos propósitos? Como podemos auxiliar as pessoas que estão a nosso redor a despertar os respectivos propósitos?

Voltando para o case inicial, não sei afirmar se os indivíduos que tive contato estão ouvindo a voz proposta por Stephen, se ocasionalmente me deparei com três pessoas que estavam “de bem” com a vida e propuseram a ajudar ou se elas foram empáticas e solidárias na ocasião.

O ponto é que existem pessoas boas no mundo e infelizmente as mídias que consumimos, em sua ampla maioria, não mostram esse lado bom da vida. Pode procurar que em toda organização você irá encontrar pessoas do bem. Cabe as lideranças o dever de potencializar esse positivo que existe em cada indivíduo.

Glauber dos Santos é formado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), com pós-graduação pela Esalq/USP. Atua com o desenvolvimento de negócios por meio da capacitação de pessoas dentro das organizações, com experiência no desenvolvimento de soluções de aprendizagem.

Pode comer tranquilo, sua comida não está envenenada

O mito da “comida envenenada”, propagado vez ou outra por algum cientista do Projac ou influencer metido a toxicologista, por mais um ano vem caindo por terra. Em dezembro de 2019, foi divulgado o relatório mais recente do PARA, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos. Um belíssimo trabalho coordenado pela ANVISA, realizado desde 2001, que avalia a qualidade dos alimentos de origem vegetal que chegam à mesa das famílias brasileiras. Posto de outra forma, é ele que indica – pautado em uma sólida base científica, alinhado com padrões internacionais – se tem ou não veneno na sua comida.

Apesar de público e com notável evolução na didática de apresentação, com versão ilustrada e resumida, a abrangência da divulgação dos resultados é tímida. Comparativamente a um post de um famoso, pode-se dizer ridícula. Em rede nacional, o desempenho também é pífio. Talvez o único momento em que o estudo teve certo protagonismo (e adivinhe, negativo! Ah vá!) foi em 2011, quando de maneira irresponsável, sem as devidas explicações, com viés ideológico, criando mais uma falácia, então técnicos da ANVISA apontaram que cerca de um terço dos alimentos estava contaminado. Quem mais pagou a conta foi o pimentão, lembra? O campeão de agrotóxicos.

Diante deste contexto, com o intuito de colaborar para que a real informação chegue ao consumidor, decidi escrever este artigo, apresentando os últimos resultados do trabalho, inclusive, contrastando uma evolução histórica. Antes de iniciar, breves considerações:

1.      Visando trazer mais didática ao conteúdo, mudei um pouco a classificação dos resultados, afinal, o que o público geral vai entender é: pode comer ou não? Tem veneno ou não tem? Neste sentido, agrupei os indicadores em: pode comer tranquilo e é necessário melhorar. Ao longo do texto vou explicar o que está dentro das respectivas classificações bem como os motivos que me levaram a colocá-los lá.

2.      Os números apresentados foram arredondados automaticamente pelo Excel, prevalecendo apenas o número inteiro. Por isso, os resultados aqui apresentados diferem sensivelmente do trabalho oficial, de modo que, caso você queira ter ciência do número exato, basta dar uma olhadinha lá.

3.      Apesar de o estudo ser realizado desde 2001, apenas a partir de 2009 consegui identificar de forma clara e padronizada os detalhamentos da maior parte dos indicadores de resultado. Dessa forma, minha análise começa a partir daí.

4.      As periodicidades de coleta/divulgação dos resultados, em função da evolução do trabalho, não são uniformes, sendo que há uma “quebra” na série temporal – especificamente a partir de 2013 – passando de amostragens anuais para ciclos plurianuais.

5.      Em função dessa plurianualidade, os resultados mais recentes referem-se a 2017/2018, sendo o primeiro ciclo do plano 2017-2020. Portanto, os resultados são preliminares (por isso o “*” nos gráficos), contando com a presença de 14 dos 36 alimentos previstos para avaliação. Uma amostra de 4.616 unidades das 16.667 que se pretende realizar (38% a mais do quando comparado ao último levantamento, 2013/2015).

Indo direto ao ponto, a Figura 1 ilustra o principal resultado da análise: seus alimentos continuam sendo seguros, pode consumi-los com tranquilidade. Pelo menos, em cerca de 94% dos casos. Com destaque ainda para o termo “continuam”, afinal, o elevado patamar de qualidade e segurança não é novidade, com registro médio nos últimos 10 anos em torno de 96%.

Sensacionalistas ideológicos de plantão podem balbuciar que o índice piorou, caindo 3 pontos percentuais em comparação ao último levantamento, sendo válido lembrar o item 5 de minhas considerações.

Segurança dos alimentos de origem vegetal no Brasil

Em uma análise mais detalhada da parcela do “pode comer tranquilo” (Figura 2), veremos que a participação relativa do “ausente de resíduos” foi a maior na história do levantamento (2009 não foi apresentado por falta de padronização de dados), de modo que 49% das amostras estavam livres de resíduos de agrotóxico.

Você deve estar pensando: “o Botão está louco! Ele acabou de escrever que posso comer com segurança 94% dos meus alimentos e em seguida diz que apenas 49% estão livres de resíduos. Como assim?”.

É isso aí mesmo meu amigo. Em uma analogia, nadar em uma piscina com cloro é completamente diferente de beber o produto. Existem níveis toleráveis. Alimento seguro, garantindo tranquilidade ao consumidor, não significa necessariamente estar livres de resíduos de defensivos.

Pode comer tranquilo (%)

O conceito de segurança não está atrelado a ausência de resíduos, mas sim da quantidade máxima de produto que você pode ingerir “sem dar algum pau”. O nome técnico disso é Limite Máximo de Resíduo (LMR) e, apesar do termo “máximo” chamar atenção, pode ficar despreocupado, pois as quantidades consideradas são mínimas, expressas, mg/kg. Eu sei, meio chato de entender. Mas para se ter uma ideia, é 0,000001 kg de agrotóxico para cada 1 kg de alimento. Traçando um paralelo, um grão de arroz pesa 0,0000273 kg, cerca de 27 vezes mais que o máximo. Ou seja, muito, muito, muito… pouco. Não pretendo entrar no detalhe, se não vou desvirtuar o propósito do artigo. Mas, caso tenha interesse, recomendo assistir o vídeo “A Calculadora do Veneno“.

Voltando para a análise dos dados, observa-se que a participação da amostra cujos registros ficaram dentro dos limites aceitáveis foi de 28% no último levantamento, o menor valor já registrado. O que foi bom, já que realizando-se uma análise em conjunto, pode-se concluir que majoritariamente houve uma migração da participação relativa de “no limite permitido” para “sem resíduos”. Ou seja, passou-se do “muito, muito, muito… pouco” para “nada”. E só não coloquei ótimo porque as inconformidades aumentaram 3% (alerta de spoiler!, isso será discutido mais pra frente), roubando, infelizmente, um pouco dessa migração.

“Pois bem Botão, 49 + 28 = 77. E os outros 17% para chegar aos 94% seguros, foram parar onde?”. Então, é aqui, meu querido leitor, que está o grande ponto de confusão. O calcanhar de Aquiles do pimentão em 2011. Esses 17%, no caso de 2017/2020, são referentes a amostras que foram identificados defensivos não autorizados para a cultura, mas cujos valores de resíduos ESTÃO DENTRO DOS LIMITES ACEITÁVEIS.

No caso do pimentão, não é que os resíduos estavam inaceitáveis, mas sim que o produto utilizado não estava autorizado para uso na cultura. O registro valia para o tomate e não para o pimentão, que pertence à mesma família vegetal, a Solanaceae e, portanto, estão sujeitas às mesmas pragas. Em uma analogia grosseira, imagine condenar um tipo de pão que utilizou de um fermento autorizado apenas para outro tipo de pão. Concorda que se fosse “para dar pau”, ia dar pau no pimentão, tomate, no pão 1, no pão 2, etc…?

Portanto, não foi uma questão de segurança e de risco à saúde, mas sim de burocracia. O problema é que no trabalho original, essa parcela é considerada “amostra insatisfatória”, apresentando inconformidade. Agora imagine essa terminologia e esses índices nas mãos erradas. É aquela história: é possível dizer um monte de mentiras falando apenas verdades. Talvez a única coisa boa que aconteceu neste escândalo do pimentão foi a chamada para agilizar o processo de registro. Não coincidentemente, a parcela do “não autorizado para a cultura” caiu de 32%, em 2011, para 17%, já em 2013/2015, patamar mantido até então. Uma proporção que deve continuar caindo com a evolução e celeridade dos registros.

“Beleza Botão, entendido! Mas e o restante? Os outros 6%? Essa é a chance que tenho de comer um vegetal e cair duro na mesa?”. NÃO! Até porque se fosse isso verdade, provavelmente já teria acontecido, considerando a quantidade de vezes que você ingere um vegetal (no caso da minha filha de 9 anos, não há chance de que isso ocorra). Então vamos entender o que compõe o valor (Figura 3), lembrando da minha consideração número 2, sobre o arredondamento dos números.

Precisamos melhorar (%)

Deste montante, 2,30% referem-se à detecção de resíduos em níveis superiores ao máximo permitido, enquanto os outros 3,40% são produtos proibidos no Brasil (0,5%) e registros de mais de uma inconformidade de maneira concomitante (2,9%).

Porém, estar acima do limite, não significa necessariamente que você vá passar mal. Significa que os limites foram ultrapassados, mas não que o “pau” seja certo. É como trafegar em uma determinada rodovia em velocidade superior à permitida. Não haverá obrigatoriamente problemas, mas os riscos, sem quaisquer dúvidas, aumentam.

No caso dos defensivos agrícolas, estes riscos são medidos sob duas óticas temporais: agudo e crônico. O primeiro é se você comer grandes quantidades de um vegetal, com presença integral de resíduos acima do LMR, em um prazo de até 24 horas, enquanto o segundo leva em consideração o consumo durante a vida toda.

“Ok. E o que são grandes quantidades?”. Vamos a um exemplo. No caso do fungicida Ciproconazol (diga-se de passagem, o mesmo princípio ativo de remédios utilizados para doenças fúngicas, como micoses), uma pessoa de 90 kg precisaria comer, dentro de 24 horas, 2 kg de maçã integralmente contaminado para que haja risco agudo de exposição e “dê algum pau”.

Como você pode notar, destaquei o “integralmente”, o que exige que todo o material a ser consumido esteja com resíduo acima do máximo permitido. Toda essa minha repetibilidade chata é para lhe dizer que, na prática, de acordo com o último levantamento – 2017/2020, o risco agudo aferido para todos os resíduos detectados foi de 0,89%!

Portanto, substituindo o “integral” da continha acima pela estatística real, seria necessário a ingestão 253 kg de maçã para que o limite fosse colocado a prova e o risco agudo se tornasse uma realidade. É por isso que nunca, no mundo todo, foi diagnosticado uma sequer morte pela ingestão de resíduos de agrotóxicos em alimentos convencionais.

Por favor, preste atenção no motivo! Não estou dizendo que nunca houve morte por agrotóxico. Estou dizendo que nunca houve morte por resíduos em alimentos. Ingestão indevida e outros causos não estão contemplados na afirmação, de modo que não pretendo entrar em detalhes neste artigo. Caso queira maiores informações, acesse a plataforma do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox).

“Beleza, Botão, já entendi que é mais fácil eu morrer de tanto comer determinado alimento do que por eventuais resíduos presentes nele. Mas e o consumo ao longo da vida? Isso não vai se depositando?”. Não! O seu corpo processa e elimina eventuais resíduos. Caso contrário, pense bem, haveria imunidade a diversos problemas, afinal, seria criado ao longo da vida um repositório de ingrediente ativos no seu corpinho. Muitos deles, como já exemplificado, utilizados em remédios, o que inutilizaria alguns medicamentos. Utilizando do jargão de meu amigo Nicholas Vital: defensivos agrícolas são os remédios das plantas e não vacinas. Quem dá longevidade é vacina, não remédio. Não há residual.

Mas para que minha argumentação não fique agronomicamente romântica demais, vamos a números. Segundo resultados do último relatório, o risco com potencial crônico foi ZERO! Ou seja, nenhum, nada, qualquer, inexistente! Aliás, na história do PARA, nunca foi detectado risco crônico que não diferente de ZERO. Dessa forma, qualquer historinha que você tenha ouvido de morte, câncer, criação de três braços ou qualquer outra aberração por consumo de alimentos convencionais, submetidos a aplicação de defensivos, é mentira.

Os resultados do Brasil no que diz respeito a segurança dos alimentos continuam sendo satisfatórios. Não existem dúvidas de que ainda existem espaços para melhorias – com avanços tecnológicos e contínua capacitação e conscientização do produtor rural – afinal, 95% não é 100%. Mas não podemos negar que este é um país onde muitas vezes as narrativas não correspondem aos fatos. Ainda mais quando os espectadores tendem a dar mais ouvidos a locutores sem qualquer conhecimento ou embasamento científico, que distorcem realidades e as transformam em fábulas ideológicas. Sendo assim, estimule seu senso crítico! Procure fontes confiáveis de informação e… continue comendo tranquilo, você não está sendo envenenado.

João Rosa (Botão) é professor do Pecege e idealizador do canal do Youtube Botão do Excel.

Quero ser um digital influencer e você?

Qual a chance de você postar uma foto com o produto de uma grande marca e despertar o interesse em patrocínios? Não é raro visualizarmos uma publicação em que o consumidor faz um apelo de patrocínio à empresa do produto consumido. Se a empresa patrocinar todos que solicitarem, as vendas com certeza cairão bastante. Já para o solicitante as consequências terão bem menos impacto.

Agora, e se esse consumidor for um influenciador digital? Será que a empresa optaria em disponibilizar produtos? Entre tantas coisas que a revolução digital nos trouxe a que tem me chamado muito atenção é a “voz” que as mídias digitais oferecem a todas as pessoas.

Digo isso porque hoje podemos postar em diversas redes o que bem pensamos, gostamos, imaginamos ou mesmo odiamos. Por um lado, é legal, pois surgem oportunidades de viabilizar talentos e negócios que antes dificilmente poderiam ser vistos por muitas pessoas. Por outro lado, surgem os oportunistas, que navegam pelo lado obscuro.

E o barato de tudo isso é que existe uma área dentro do marketing que estuda todo esse movimento e tendências, uma vez que, de fato, existem oportunidades para alavancar os negócios nesta miscelânia toda, seja por meio do marketing de conteúdo ou mesmo por meio dos “digital influencers”.

Cada vez mais as empresas estão conhecendo e montando estratégias de comunicação digital para acompanharem este movimento e importância desses influenciadores. Qual seria o impacto que a sua atividade comercial teria se um influenciador postasse uma foto consumindo o seu produto?

Mas esses mesmos influenciadores podem fazer um vídeo, uma live ou um post comentando negativamente sobre seu produto, a marca de sua empresa ou mesmo sobre um setor produtivo.

Recentemente, a cantora badaladíssima Anitta, que tem mais de 40 milhões de seguidores, postou um vídeo dizendo: “Para você tirar leite da vaca todo dia de manhã para o resto da vida ela tem que estar grávida para sempre, né? A vaca não dá leite assim, não é um bicho que dá leite do nada. A vaca, para dar leite, tem que estar grávida, tem que ter um filho. Porque tem que ter um monte de bezerro o tempo inteiro, enchem a vaquinha de hormônio para ela sempre estar pronta para engravidar”, disse a cantora.

Imagine a quantidade de pessoas que devem ter tirado o leite de suas refeições, mesmo a influencer estando equivocada em várias partes de sua fala. Acredito que poucos fãs da cantora “deram um Google para verificar a veracidade dos fatos mencionados.

Existem três importantes termos que norteiam a qualificação de um indivíduo a ser ou não um influenciador digital segundo Bia Granja: alcance; ressonância; relevância.

  • alcance: relacionado ao tamanho da audiência;
  • ressonância: repercussão e capacidade de engajamento junto a audiência;
  • relevância: diz respeito ao fit que o indivíduo tem com o assunto ou valores da marca.

Ainda sobre a Anitta, o lado bom para os produtores de leite é que ela não tem uma notória relevância sobre a pecuária leiteira.

O importante de tudo isso é que nossas atividades podem ser impactadas positiva ou negativamente por influenciadores que possuem grandes audiências. Bem como podem sofrer influência de indivíduos que tem relevância e entendem do assunto, mas possuem alcance menor.

A grande dificuldade é mapear e identificar quem são os indivíduos que conseguem influenciar outras pessoas e que possuem uma grande afinidade com o propósito, produto ou serviço da nossa empresa. Um passo importante é avaliarmos como os próprios funcionários estão engajados e influenciando outras pessoas com os produtos e serviços da empresa.

O fato é que, independente dos meios de comunicação que serão utilizados pela empresa, o cliente busca cada vez mais produtos e soluções alinhados com seus valores, princípios e propósitos.

No entanto, nem sempre a comunicação que a empresa faz é a mesma que chega no celular do cliente. Algumas vezes o cliente só percebe o propósito da empresa em um vídeo que o digital influencer postou. Essa é a nova realidade em que vivemos!

Bom, hoje a chance que eu tenho de ser patrocinado por uma empresa que eu admiro a marca e o produto ainda é muita baixa, indícios que eu preciso melhor o meu alcance, ressonância ou relevância. Como fazer isso, podemos discutir no próximo artigo.

Glauber dos Santos é formado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), com pós-graduação pela Esalq/USP. Atua com o desenvolvimento de negócios através da capacitação de pessoas dentro das organizações, com experiência no desenvolvimento de treinamentos corporativos in company.

O sucesso do happy hour e o Customer Success

Sextou! Talvez esta seja uma das principais palavras ditas em uma infinidade de empresas. E o que eu tenho a ver com isso? Se você está em um nível operacional e constantemente torce para chegar às 17h de sexta-feira pare, pense e reflita: eventualmente os propósitos da sua área de atuação ou mesmo os da empresa não estão alinhados com os seus propósitos. Em uma outra visão, cuidado: você poderá ficar disponível para o mercado logo, logo.

Por outro lado, se você está em uma posição de liderança, diretoria e os funcionários não vem a hora de ir embora, acenda o sinal de alerta, pois pode indicar que algo está desalinhado dentro da organização, sejam princípios e valores ou até remuneração entre outros fatores.

Observação: Os relatos acima requerem uma dose de moderação, afinal quem não gosta de encontrar os amigos para confraternizar ou mesmo pular no sofá de casa em uma sexta-feira, às 18h01?

Antes do famoso “sextou”, que tal avaliarmos como foi nossa semana e nossos objetivos realizados? Podemos dizer que o dever foi cumprido? Ou, ainda, conseguimos fazer com que o cliente alcançasse o resultado desejado através de interações com a minha empresa (Lincoln Murphy – norte-americano considerado o idealizador e a principal referência em CS (Customer Success)?

O sucesso do cliente significa trazer a centralidade no cliente. Ou seja, se o seu cliente não teve prosperidade por meio de uma solução que você vendeu, existe uma grande chance de ele desistir do seu produto/solução.

Segundo Philip Kotler, o papa do marketing, reter um cliente é 5 vezes mais barato do que conquistar um novo. Como a aquisição de um novo cliente geralmente não tem um custo baixo, a opção de focar no sucesso do cliente passa a ser uma estratégia bem interessante.

Porém não existe almoço grátis. O Customer Success é diferente de SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente). O CS tem como objetivo manter os clientes por mais tempo na base, consumindo diferentes ferramentas/soluções, consequentemente gerando mais receita.

O CS precisa fazer com que o cliente atinja os objetivos, mesmo não estando tão evidentes no primeiro momento (verdade, acredite, às vezes tem cliente que não tem claro os próprios objetivos), e conhecer, igual ou até mais, o negócio do cliente para apresentar alternativas/soluções condizentes com as reais necessidades.

A empresa como um todo deve estar atenta ao cliente e não apenas a uma pessoa ou área. Este pode ser o maior desafio da centralidade no cliente.

Em suma, a sexta-feira sempre chegará, mas o seu cliente chegou ao resultado desejado por meio de interações que teve com a sua empresa? Se a resposta for sim, nada mais justo que “sextar” com os colegas de trabalho. Afinal aquele happy hour às 18h01 da sexta-feira sempre cai bem, não é mesmo?

O Ministério da Saúde adverte: se for beber convide os amigos.

Glauber dos Santos é formado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), com pós-graduação pela Esalq/USP. Possui experiência no desenvolvimento de treinamentos corporativos in company e atua com Customer Success, propondo soluções para levar os resultados que os clientes esperam.

O infarto fulminante de empresas sedentárias

Estou longe de ser um esportista profissional, o máximo que já ganhei foi um interclasses na época de colégio e alguns torneios de futebol de society disputados de fim de semana. Além do futebol, gosto de correr e pedalar no fim de semana e recentemente comecei a brincar de jogar tênis com os colegas do trabalho. Talvez possa parecer falta de foco praticar diferente modalidades, respeito essa opinião…, mas, o fato é que o lance para mim está em movimentar o corpo e liberar o hormônio do prazer, a endorfina.

 Que atividade física traz benefícios para a saúde nós já sabemos. Mas quais benefícios indiretos podemos desenvolver ou ainda levar para dentro das empresas que trabalhamos? O primeiro ganho que considero é a DETERMINAÇÃO, acordar as 5h – 5h30 da manhã para treinar, ou mesmo competir, convenhamos que não é uma tarefa trivial. Assim, quando você sente prazer naquilo que faz, o frio e a chuva deixam de ser obstáculos e você alcança seu objetivo. Os líderes nas empresas devem buscar conhecer o que deixa seus liderados com essa “vontade de fazer”.

Quando temos outras atividades extras no trabalho, como uma atividade física regular, passamos também a preocuparmos com outras coisas como: treino, competição, disciplina alimentar entre outros. Assim, o convívio com outras pessoas aumenta, melhora e eventualmente pode gerar oportunidade de negócios, e assim vai… Tais fatores contribuem para diminuir o estresse no ambiente de trabalho e você passa a otimizar melhor a sua jornada no tempo em que está na empresa. Podemos traduzir este benefício da atividade física como GESTÃO DO TEMPO.

Uma das coisas que eu mais admiro nos esportes é o TRABALHO EM EQUIPE. Sim, temos várias competições com disputa é individual. No entanto, existe um staff nos bastidores e normalmente uma equipe grande. Não se faz um campeão sozinho. Nas demais competições, impera o termo equipe, embora alguns “Neymares” (eu admiro o talento que ele tem como jogador) ainda acreditam que o individual pode superar o coletivo. Não é raro encontrarmos esse tipo de pensamento dentro das empresas.

Outro sentimento que admiro muito, principalmente em corridas de rua que tenho participado, é a SOLIDARIEDADE dos atletas. Vejo constantemente a preocupação entre os participantes. Concordo que não é um ambiente de competição extrema, mas me comove e tento levar para o ambiente de trabalho. Nas empresas, apesar de nos depararmos com um ambiente competitivo, o altruísmo com certeza também tem espaço e, melhor ainda, proporciona melhorias para os cofres da empresa, pois em um ambiente colaborativo os processos tendem a ser mais eficientes.

Entrando um pouco no ramo da Psicologia Positiva, um fundamental elemento (não sei se assim posso dizer), chegamos ao chamado PROPÓSITO, aquilo que permite você encontrar a sua FELICIDADE. Ou seja, está relacionado ao prazer, às relações positivas, aos bons momentos, a servir a algo que você acredita ser maior do que você. Esses fatores sem dúvida tornam o atleta mais focado, determinado a atingir seus objetivos e encarar os desafios que surgirem no caminho. Assim deveria ser nas empresas, ou assim é em algumas empresas que apresentam bons resultados financeiros. Por isso, conheça as pessoas que trabalham na sua empresa e o que as deixam felizes. Será que o propósito das pessoas está alinhado ao da empresa?

Poderíamos descrever várias outras características em comum para os atletas e as pessoas dentro da pirâmide empresarial, mas encerro com aquele que tem um potencial de transformação muito grande: TREINAMENTO. Recentemente, acompanhamos a conquista de Rafael Nadal (tenista espanhol, 33 anos) do US OPEN, após quase cinco horas de jogo hoje ele é o segundo melhor tenista no ranking mundial – mas, já foi o número um por muito tempo. Lendo algumas matérias sobre a sua biografia, vi o quanto o cara se dedica aos treinamentos, os quais são quase insanos, em ambientes adversos para chegar nos jogos e ter um ambiente de competição mais tranquilo. Nas empresas é comum selecionar, recrutar e cobrar… O que temos feito para capacitar e aproveitar ao máximo o potencial intelectual, comportamental e social das pessoas que estão jogando no nosso time?

O Ministério da Saúde adverte: consulte um médico especialista antes de iniciar uma vida mais ativa nos esportes, pois a atividade física exigirá muito do sistema cardiorrespiratório. O Sebrae também adverte: um a cada quatro empresas fecha antes de completar dois anos no mercado, por falta de gestão com as pessoas, planejamento financeiro e estratégia.

Glauber dos Santos é formado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), com pós-graduação pela Esalq/USP. Possui experiência no desenvolvimento de treinamentos corporativos in company e atua com Customer Sucess, propondo soluções para levar os resultados que os clientes esperam.

O que te move para o aprender?

Outro dia me deparei pensando com os meus botões sobre o que leva uma pessoa a aprender algo.  Apesar de ser uma simples pergunta, a resposta tem várias derivações e curiosidades.

Lembro que na fase de criança minha mãe ficava no meu pé para decorar as equações matemáticas e leis da física, caso contrário eu reprovaria na escola, não teria férias e até algumas chineladas na bunda sobravam para mim. Isso lá atrás, no ensino fundamental.

Depois, o decoreba deu lugar para o “ter que entender as coisas” na época do ginásio e cursinho pré-vestibular (período que eu mais queira entender as teorias e menos conseguia rs), sempre com os conselhos de mãe para incentivar os estudos e outros atos positivos. Somente lá pelo segundo ou terceiro ano de faculdade, lá na UFLA, foi que consegui entender que por trás das fórmulas, ligações químicas e sinapses nervosas existem os porquês, conexões e encantamentos.

Extrapolando este breve relato ao campo da psicologia, podemos inferir que o modelo de aprendizado que tive na infância/juventude pode ser baseado na Teoria de Skinner, o qual postulou que os indivíduos tendem a se comportar em busca de recompensas ao tempo em que evitam punições.

Apesar de ter alcançado algumas recompensas, várias punições também estiveram presentes na minha trajetória. No entanto, com a maturidade, a busca por aprender (seja uma nova língua, profissão, melhor colocação profissional, entre outros) deixou de ser devido a punições e passou a ser devido a outros fatores, sejam eles cognitivos ou em função do meio.

A velha máxima de que “devemos aprender algo novo todo dia” é verdade. No entanto, entender o que motiva as pessoas a aprenderem e qual a melhor metodologia para facilitar este aprendizado ainda precisa ser mais bem desvendado. Quando olhamos para o universo corporativo, o desafio é ainda maior. Crianças e adolescentes têm uma forte influência dos pais como incentivadores para a aprendizagem. Esses, por sua vez, quando chegam nas empresas onde trabalham, nem sempre são motivados a buscar informações, conhecimento e habilidade para performarem em suas profissões.

Quando falamos de aprendizagem em um ambiente corporativo, podemos pensar de aprendizado pelo próprio meio social (cafezinho, almoço, conversas informais etc.) ou mesmo de um treinamento customizado para a empresa.

Um ponto de atenção importante é lembrarmos que nem todos os funcionários estão dispostos a aprender a todo momento, seja por dificuldades cognitivas, falta de base teórica ou mesmo por estar com a “cabeça em outro lugar”. Assim, antes de desenhar um treinamento, selecione bem quem participará e se existe motivação para participar da capacitação, caso contrário, 50% de insucesso é garantido.

 “A aprendizagem é a consequência de experiências vivenciadas pelo indivíduo em seu ambiente e proporciona mudança de caráter duradouro.” (Morris Bigge, 1977)

Partindo do princípio que todos os selecionados para a capacitação estão aptos e motivados, o próximo passo é identificar qual modelo de aprendizagem melhor se encaixa no público:

  • Visual 

Pessoas que têm facilidade de aprender com estímulos visuais e se comunicam melhor de forma gráfica, através de desenhos.

  • Auditivo

Gostam de aulas expositivas, palestras, podcasts, músicas e conversas. Costumam falar, perguntar e repetir informações para memorizá-las.

  • Leitura e Escrita

Este perfil tem maior facilidade na leitura e em transmitir suas ideias em redações, optando por estudar com livros, artigos, dicionários, textos online, listas, além de sempre anotarem palavra por palavra as informações das aulas expositivas.

  • Cinestésico

São pessoas que têm facilidade de aprender com a prática, por isso estímulos externos são essenciais. Atividades concretas, como simulações, demonstrações, dinâmicas e métodos lúdicos como a gamificação são estratégias preferenciais para estes indivíduos, que tendem a valorizar mais suas experiências próprias.

Vale lembrar que sempre teremos pessoas com mais de uma característica, bem como teremos participantes com dificuldades em definir as próprias características.

O importante para a efetividade de uma capacitação é conhecer o público que será treinado, suas motivações, interesses e limitações, só não podemos dar umas chineladas no bumbum caso o treinando não aprenda o conteúdo ministrado no treinamento.

Glauber dos Santos é formado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), com pós-graduação pela Esalq/USP. Possui experiência no desenvolvimento de treinamentos corporativos in company e atua com Customer Sucess propondo soluções para levar os resultados que os clientes esperam em seu negócio.

What The Health é sobre comida ou religião?

Eu finalmente assisti o documentário What The Health. Nada de surpresa. Um enredo parcial, construído a base do medo, em que as atividades relacionadas à produção/consumo animal, que estão mancomunadas com a indústria farmacêutica e o sistema como um todo, são a causa de todo o mal.

Contudo, não pretendo neste artigo contra-argumentar os pontos científicos do material ou investigar seus participantes, pois isso seria chover no molhado. Minha linha de raciocínio vem em questionar a credibilidade do documentário, traçando um paralelo com religião e ideologismo da causa.

O primeiro aspecto é construção demonizada daquilo que vai contra o que você prega, o que é típico das religiões mais fanáticas. Se não é “o seu” ou “do seu jeito”, não é correto e deve ser eliminado. No caso, é a jihad contra o consumo de carne, leite, ovos etc., afinal, ele é a raiz do mal.

Salvo alguns relâmpagos em que palavras como equilíbrio e consumo consciente aparecem, no geral, é NÃO. NÃO pode, NÃO precisa e ponto final. E nesse processo de “conscientização”, o documentário traz o testemunho de alguns fiéis, que depois de se converterem, alcançaram feitos fantásticos.

A seguir e, de forma repetitiva, pincei alguns trechos milagrosos do documentário (e se não acreditar, fique à vontade para assistir):

Michael Abdalla, 69 anos, aparece no minuto 7:29

É diabético há dez anos, dois stents implantados (não sei exatamente o que é, mas é para o coração) e está insatisfeito com a quantidade de remédios que toma (16 ao todo, confira no minuto 59:43) para o tratamento do diabetes, auxílio para urinar, próstata, coração e pressão arterial. No trecho 1:22:03, já vegano, ele volta disposto, sorridente e 13 kg mais magro. Cortou os remédios e a insulina pela metade, com o intuito de cortar tudo futuramente. Um novo homem.

Amy Resnic, 51 anos, aparece no minuto 12:23

Asmática, tem alto risco de evento cardíaco, de modo que em uma escala de 0 a 3, declarou um índice de 10,82, afirmando que o enfarte nos próximos 30 dias era quase certo. Contei 7 remédios em sua bancada, ministrados para dores musculares, estresse etc. No momento 1:18:23 ela volta, vegana. Depois de apenas duas semanas (14 dias, como ela enfatiza), não precisa mais tomar remédio para asma, antidepressivos, analgésicos, remédio para o coração, nada. Nenhum remédio. Curada.

Jane Chapman, 61 anos, aparece no minuto 28:52

Tem osteoartrite bilateral de quadril, apresentando dificuldade para caminhar, fazendo-o, inclusive, com andador. No minuto 59:19 ela aparece novamente, onde é possível contar cerca de 20 diferentes tipos de remédios/suplementos, sendo dois remédios para pressão alta, seis para asma, outros que ajudam a cuidar dos efeitos colaterais dos outros remédios, antidepressivos e medicamentos para dores. Finalmente, no 1:12:53, ela retorna, vegana. Aparentemente mais magra, disposta, andando sem apoio “pela rua, curtindo o ar fresco, a luz do sol” (palavras dela). E tudo isso em apenas duas semanas de conversão.

Ruby Lathon, não informou idade, aparecendo no minuto 1:15:01

Teve câncer de tireoide. Não quis remover a mesma e tentou métodos alternativos. Virou vegana e depois de um ano o câncer sumiu.

Eu não vou citar os causos dos esportistas que aparecem, que declaram um aumento considerado no desempenho depois que viraram veganos (sinceramente, não sei como os russos não descobriram isso 😉) ou fato do Steve-O (sim, aquele do Jackass), ser um dos garotos propaganda.

Bom, acho que você entendeu onde quis chegar. Pensa comigo, é ou não o mesmo modo de operação dos cultos que você, seja vegano ou não, vê na TV ou ouve no rádio de pessoas que eram pobres, fodidas etc., e que depois de entrar na igreja, conseguiram carro, casa, empresa, blá blá blá. Uma lavagem cerebral que inspira certa indignação da sua parte, fazendo com que seu subconsciente pense: como é que tem trouxa que cai nessa? Afinal, você sabe que as conquistas dos bens ou prêmios elencados nos testemunhos vão muito além de você simplesmente fazer parte do rebanho.

Pois bem, eu te respondo. O bobo que cai nessa, em geral, é o indivíduo carente, sem informação. Que, guardado as devidas proporções, é a mesma coisa do espectador ignorante – no bom sentido da palavra, que assiste o What The Health. Com pouco conhecimento do assunto, vê uma série de dados científicos, que são estrategicamente apresentados entre uma cena chocante e outra e enfatizados por pessoas com PhD na frente do nome. Um thriller de terror diante de nossos hábitos alimentares, seguidos da solução/convite para o paraíso. É um documentário covarde.

O consumo consciente, sem dúvidas, é de extrema importância e deve fazer parte das discussões quanto hábitos alimentares. Agora, o que deve ser respeitado – já que o paralelo é religião – é o livre arbítrio. Cada um pode escolher o quê e o quanto consumir de cada coisa. É pessoal, assim como a fé. O que se diga de passagem, em termos de alimentação, é um aspecto bacana do mundo contemporâneo, afinal, nichos estão se desenvolvendo para todos os gostos (e bolsos).

João Rosa (Botão) é professor do Pecege e idealizador do canal do Youtube Botão do Excel.

Falta de tempo ou falta de prioridade: o que mais atrapalha o desempenho das pessoas?

Você já ouviu alguém dizendo “não tenho tempo para nada”? Pois é, eu também … E por incrível que pareça, também já vi vários colegas que têm suas obrigações profissionais e, além de serem excelentes pais (entenda-se aqui pai ou mãe), praticam esportes (mesmo que apenas no fim de semana) e ainda realizam atividades sociais e espirituais (frequentam missa, cultos, etc.).

Qual a diferença? Será que o dia destas pessoas mais ocupadas tem mais de 24 horas? Trabalham menos de 8 horas diariamente? Ou elas têm prioridades e visões diferente da vida curta que temos?

É comum, e muitas vezes mais cômodo, falarmos que estamos sem tempo. “Estou fazendo mil e uma coisas”, “meu dia precisa ter mais de 24 horas”. Quando analisamos cautelosamente, é verdade que as empresas têm exigido que seus profissionais sejam “multitarefas”, os filhos exigem (e merecem) a atenção dos pais. No entanto, mesmo nestas condições, o planejamento e as prioridades que elencamos ao longo de nossa vida faz toda a diferença entre você ser um bom profissional e você ser uma pessoa reconhecida na empresa, na família e na sociedade.

A dualidade entre Tempo x Prioridades não é rara e tampouco desconhecida para grande maioria da sociedade. O ponto é: por que não conseguimos deixar de priorizar a falta de tempo? Porque não deixamos de priorizar redes sociais em excesso, televisão e outros hábitos que consomem nosso tempo sem que percebamos?

Biologicamente conseguimos uma explicação. Segundo alguns pesquisadores, nosso cérebro prioriza a economia de energia através de hábitos e rotinas, ou seja, quanto menos você pensar mais energia irá economizar. Isto porque o cérebro consome 20% da nossa energia corporal, visto que diariamente cerca de 30 mil decisões são tomadas por uma pessoa.

Por esta ótica, seguir hábitos e rotinas pode ser coerente. Por outro lado, o cérebro não consegue distinguir o que é uma rotina ruim e o que são hábitos saudáveis, assim você pode optar por quais rotinas quer impor no teu dia a dia.

A decisão por qual caminho seguir e quais hábitos devemos adotar é muito pessoal e deve ser uma decisão baseada em princípios e propósitos, mas não por costumes que a sociedade nos apresenta e muita das vezes acabamos por seguir.

O que te deixa feliz? Qual o seu legado? Como você gostaria de ser reconhecido?

Seja autêntico e com personalidade. Uma boa dica é ter a cabeça, o corpo e mente saudáveis, assim você terá mais chances de se tornar um profissional bem sucedido, pois irá estudar, ler, trocar experiências para manter a cabeça ativa; ter uma mente mais sã com a prática da atitude e pensamento positivo; fazer o bem aos semelhantes e à natureza, ao conhecimento através de atividades com o yoga e espiritualidade; por fim, ter um corpo mais maduro com a pratica de atividades físicas, boa alimentação e bom sono.

Do lado das empresas não podemos esquecer que o principal patrimônio de uma organização, depois do nome/marca, são seus colaboradores, os quais são os responsáveis pela empresa. Assim, auxiliar os funcionários a entender seus propósitos de vida e, consequentemente, a conseguir planejar suas prioridades é fundamental para eliminarmos os dizeres comum como “não tenho tempo para nada”.

Por isso a importância de os gestores conhecerem de perto os seus colaboradores, para conseguir uma maior realização pessoal destes e, indiretamente, aumentar as prioridades deles.

Podemos ter bem mais do que apenas uma ótima vida profissional, podemos contribuir com ações em família, na comunidade e na sociedade como um todo, seja através da doação de nosso intelecto ou braço.

Glauber dos Santos é formado pela Esalq/USP e possui experiência no desenvolvimento e treinamento técnico em diferentes cadeias produtivas do agronegócio, além de atuar com gestão de projetos de viabilidade econômica.

Quais as atividades você realiza frequentemente, além dos afazeres profissional e doméstico? Compartilhe conosco.

A revolução no conceito de carne

O diálogo abaixo relatado aconteceu num dia normal, como qualquer outro, de um brasileiro comum que foi almoçar na casa de sua mãe.

– Mãe, esse parmegiana você fez com filé mignon? – indaga o filho. A mãe já inquieta responde prontamente:

– Lógico que sim, por que? Está ruim? – O filho já percebendo que poderia ter feito o comentário de outra maneira para não magoar a dona da casa que fez um almoço para a família com todo o carinho, tenta concertar a situação:

– Não, mãe, está bom! Mas a carne não está tão macia assim…

Nesse momento entra em cena a matriarca da família, a avó, que nos últimos quinze anos de sua vida almoçava diariamente na casa da filha e com todo garbo, elegância e conhecimento de causa dispara:

– Minha filha, está muito gostoso, mas poderia estar melhor. Essa carne provavelmente é de um boi tucura ou de um gabiru! Enganaram você.

A família, que recebia a avó todos os dias para o almoço, caiu na risada e assinou embaixo a fala. A mãe, inconformada, foi tirar satisfação com o açougueiro que vendia carne para a família há mais de 40 anos. A revolução na busca por uma qualidade de carne atinge a todos na cadeia, não somente os mais entendidos ou os que trabalham no setor.

A narrativa acima, pode parecer um romance ou mais uma história comum, mas retrata a nova realidade do mercado de carne no país: o brasileiro aprendeu a comer carne e cada vez quer mais qualidade, maciez e padronização. E com a maciça informação disponível no mercado, não se faz mais de tonto.

O crescimento de renda observado nos últimos 15 anos no mercado doméstico brasileiro, elevou uma classe ao consumo cada vez mais de serviços e experiências, em relação à carne bovina. O boi tucura, o boi gabiru, estão dando lugar cada vez mais de forma consistente a um gado precoce e de diferentes raças e/ou cruzamentos.

Num passado recente, o açougueiro “enfiava” carne velha, sem padrão, para clientes, fossem fidelizados ao local de compra ou não. Hoje em dia, com o avanço do interesse e acesso às informações, o “novo açougueiro” trata seu cliente com atenção e, por que não dizer, preocupação. Consumidores buscam conhecer mais sobre cortes e raças e, procuram na hora da compra, se certificar que estão comprando e pagando por um bom produto, somado ao interesse de saber como se deve fazer e servir cortes diferentes, exigindo do vendedor de carne uma profissionalização de conhecimento e serviços.        

Esse movimento fez surgir inúmeras boutiques de carne, que além de oferecerem um produto e atendimento de qualidade, vem oferecendo também a experiência, ou seja, fazendo degustação de diferentes cortes e raças, atraindo cada vez mais a atenção e o paladar dos consumidores, assim como ensinando-os a melhor manusear o produto carne.

Evidentemente que estamos falando sobre um nicho de mercado, que vem se consolidando e amadurecendo, sempre lembrando que vivemos em um pais continental de muitas diferenças sociais, econômicas e nos padrões de consumo. Por outro lado, o mercado de carne de qualidade, ganha espaço, principalmente pela falta de padronização do boi e da carne produzidos no Brasil. O consumidor acordou na busca de um produto de maior valor agregado em termos de maciez e padronização. Vale lembrar que quando a rede de fast food McDonalds veio ao Brasil, na década de 80, comprava-se carne somente de gado argentino e uruguaio, devido à falta de padronização da produção.

Isso mudou e continua evoluindo. O mercado amadureceu, tanto pela necessidade de produzir mais e competir com outras atividades (grãos, floresta, cana-de-açúcar), assim como para atender um mercado mais exigente, seja interno, seja externo. A narrativa do filé a parmegiana feito com filé mignon de boi velho e sem padrão vai continuar existindo, mas com dias contados, sendo precificado para baixo e inviabilizando a atividade.

Temos no mercado de forma cada vez mais distinta o boi commoditie, que vai atender a demanda por volume e preço, o boi commoditie diferenciado, o gado padronizado, mas que é cada vez mais jovem e resultado de melhoramento genético e/ou cruzamento, e, por fim, o gado gourmet. Esse é o gado altamente precoce, com dieta balanceada e que traz ao consumidor a experiência de comer carne bovina.

O cliente final, se tratando de carne bovina, está menos bobo e mais interessado em conhecer sobre o mercado e suas peculiaridades, o que exige de toda a cadeia, da indústria de insumos ao varejo, uma atenção especial. Isso desde o que oferta ao animal para a engorda, assim como a forma de produzir, chegando à forma de comercializar. Uma vez enganado e/ou decepcionado com qualidade do produto, a cadeia perde a confiança do consumidor, que não pensa duas vezes em mudar locais de compra, assim como hábitos de consumo.

O padrão o gado brasileiro evolui, assim como a produtividade dentro e fora da porteira e a demanda por carne bovina.  Hoje não se fala mais de carne de primeira ou de segunda, e sim, boi de primeira e boi de segunda. E isso é uma evolução de toda a cadeia.

Ps. A narrativa é real. A dona da casa é minha mãe, e após esse almoço foi reclamar veementemente com o açougue e seus donos. Há hoje quem diga que é só chegar no açougue e pedir a carne que ele vende para a Dona Nair. Segundo alguns, é a melhor. Fica a história e o aprendizado para todos, consumidores e operadores de carne.

Artigo escrito por Thiago Bernardino, professor do curso de Gestão e Custos da Cadeia de Pecuária de Corte da Plataforma Solution.

A gestão de riscos no agronegócio

O Brasil vive um momento único, ao longo da sua trajetória econômica recente, configurando o ano de 2019 como um período de transição. Esse ponto de inflexão reflete a retomada do crescimento econômico, o aumento da confiança do consumidor e da indústria, a redução do risco país, a redução dos níveis da taxa de juros e da inflação e, consequentemente, a recuperação do mercado de capitais.

Neste contexto, é importante mencionar o papel do agronegócio brasileiro, enquanto catalisador do crescimento econômico do país. Este setor representou, em 2018, cerca de 21,1% do PIB nacional, ocasião em respondeu por quase 1,4 trilhões de reais (CEPEA, 2019). Adicionalmente, contribuiu com a geração de quase US$ 100 bilhões de divisas ao país, respondendo por 42% da pauta de exportação. O Brasil agrícola é uma potência, sendo um dos principais players no mercado global de commodities agrícolas, com destaque para açúcar, suco de laranja, proteína animal, milho e soja.

Essa expressividade da agroindústria brasileira foi pautada, ao longo dos anos, pelos avanços tecnológicos, mudanças nos processos e na infraestrutura. Espera-se que a evolução do setor se intensifique ainda mais com as grandes oportunidades que se formarão nos próximos anos, principalmente, relacionadas à tecnologia e como ela moldará a paisagem dos negócios agrícolas. Estamos na iminência de uma nova revolução: a Agricultura Digital ou Agro Inteligência, na qual a ciência dos dados e o mundo digital alavancarão a eficiência no campo, aumentando a produtividade e diminuindo a utilização dos recursos naturais. Com o melhor monitoramento do tempo e uma maior precisão nas práticas agrícolas, a tendência é a de que a produtividade alcance novos patamares.

No momento atual, o agronegócio brasileiro, de forma similar à economia brasileira, depara-se com um momento decisivo. No entanto, o sucesso que nos trouxe até aqui, não será o mesmo para o novo ciclo, cabendo a superação de uma série de desafios. Apesar dos enormes avanços tecnológicos, os desafios para o agronegócio brasileiro envolvem, substancialmente, três pilares. O primeiro é a agregação de valor e diversificação, de forma a responder às expectativas de uma sociedade cada vez mais exigente, bem como atender aos mercados mais sofisticados, competitivos e rentáveis. O segundo compreende a intensificação da produção de forma segura, considerando alguns aspectos, tais como, elevação da produtividade e da qualidade com tecnologias de baixo impacto e redução das emissões de gases de efeito estufa. O terceiro se relaciona à gestão dos riscos inerentes à atividade econômica em questão. O agronegócio, além de estar sujeito ao risco sistêmico – isto é, comum a toda economia brasileira – apresenta uma gama considerável de riscos específicos. É justamente sobre esse último grupo que o setor deve dispender esforços para mitigação.

Esse processo passa pelo entendimento do próprio conceito de risco. Qualquer evento incerto que possa impactar um negócio e, ao qual é associado uma probabilidade de ocorrência, é considerado um fator de risco. Entende-se, portanto, o risco como incerteza. É fácil notar que o agronegócio está sujeito a fatores de risco das mais variadas fontes, tanto sistêmicas, quanto relacionadas aos fatores climáticos, agronômicos, de mercado (oferta e demanda de commodities) e de liquidez.

A sustentabilidade do setor está intrinsecamente relacionada à previsibilidade de rentabilidade. São as perspectivas de custos, produção, receitas e fontes de financiamento que pautam as tomadas de decisões do negócio. E, nesse sentido, a atenuação do risco se faz necessária. A forma de implementação da tão almejada mitigação de risco é por meio do serviço de gestão de risco, cujas etapas passam pela identificação, classificação, avaliação, tratamento dos riscos e monitoramento das soluções. Tais etapas são sistematizadas na figura abaixo:

A primeira etapa compreende a identificação dos riscos associados ao negócio. Isto é equivalente a identificar qualquer fator cujo resultado será totalmente ou parcialmente incerto independentemente da forma de gestão dos recursos e qualquer boa prática que se vier a implementar na empresa. Ou seja, de forma mais técnica, fatores de riscos são todos aqueles cuja a ocorrência provém de um evento estocástico (ou aleatório).

A segunda etapa consiste na classificação dos riscos identificados para melhor avaliar seus impactos para o negócio e as possíveis soluções de gerenciamento. No agronegócio, podemos agrupar os riscos dentre as seguintes categorias: Riscos Operacionais, Agronômicos, de Mercado, Financeiros e Institucionais.

Os Riscos Operacionais são aqueles ligados ao processo produtivo e consequência da forma de gestão da empresa. Tais incertezas podem ser exemplificadas por perdas no processo produtivo – decorrentes, por exemplo, de falhas no plantio e colheita – acidentes no trabalho, problemas mecânicos em maquinários, entre outros.

Riscos Agronômicos são a exclusividade do agronegócio. Estes são os mais difíceis de prever e controlar os efeitos. Essas incertezas consistem em eventos físicos e biológicos que se traduzem em riscos climáticos e fitopatológicos que podem vir a prejudicar as condições de cultivo das culturas agrícolas e reduzir a produtividade das lavouras. É importante destacar, no entanto, que o termo risco não se refere a uma possível condição desfavorável para um processo, mas simplesmente a incerteza quanto ao seu resultado. Desta forma, eventos climáticos, por exemplo, podem trazer ganhos de produtividade para culturas e ainda sim ser classificados como riscos.

Os Riscos de Mercado, por sua vez, são aqueles associados à flutuação dos preços (decorrentes de variação na oferta e demanda de commodities) e outras variáveis econômicas que impactam, concomitantemente, os custos e as receitas dos negócios. Tais variáveis incluem, dentre outras, a taxa de juros, a taxa de câmbio e o crescimento da renda. As incertezas enquadradas no grupo de risco de mercado têm impacto direto na categoria de Riscos Financeiros, em especial no que tange à imprevisibilidade da taxa de câmbio. Esta última categoria de riscos – os financeiros – estão relacionados à estrutura de capital e alavancagem (que determinam a sensibilidade da dívida da empresa em relação às condições de mercado), ao desempenho operacional e à liquidez.

Os Riscos Institucionais estão relacionados às alterações nas legislações, políticas fiscais, tarifárias e de juros, restrições ambientais, normas sanitárias e práticas de organismos internacionais de regulação (como a Organização Mundial do Comércio) e que podem impactar no agronegócio. Na prática, os riscos podem se manifestar como criação de novos tributos ou de leis ambientais restritivas, sanções de órgãos internacionais de regulação, represálias de países importadores, entre outros.

Após a classificação das incertezas, segue-se para a avaliação dos riscos. Nesta etapa, o que se busca fazer é avaliar os possíveis impactos das variáveis incertas nas diferentes dimensões de um negócio, por exemplo, reputação da companhia, resultados financeiros, bem-estar social dos funcionários, entre outros. Essa etapa deve levar a priorização de esforços para a gestão daqueles riscos com maior probabilidade de impacto negativo à empresa. A avaliação pode ser conduzida utilizando ferramentas qualitativas, como análise SWOT ou 5W2H, como também técnicas quantitativas baseadas em probabilidades e métodos estatísticos.

A última etapa compreende o tratamento dos riscos. Dada a ordem de prioridades determinada na etapa anterior, duas principais perguntas devem ser respondidas: (i) Quais as formas possíveis de gestão deste risco?; (ii) Qual o custo de implementação e monitoramento desse mecanismo de gerenciamento?

Tão importante quanto avaliar o efeito de uma variável incerta é estimar o custo de gerenciamento para minimização dos seus impactos. A priorização inicial deve ser alterada caso perceba-se que o custo de gerenciamento supera o retorno esperado do controle do risco. Portanto, a fórmula final é simples: priorize gerenciar os riscos com maior impacto para o negócio cujo mecanismo de controle seja o mais barato possível.

Claro que, na prática, nada é tão simples. É necessário, muitas vezes, conhecimentos técnicos e da dinâmica do negócio para que a melhor decisão seja tomada. No agronegócio, diversas ferramentas e tecnologias vêm sendo aplicadas para gestão das variáveis incertas que afetam desde o cultivo até a comercialização dos produtos agrícolas. De forma geral, a efetividade do uso dessas ferramentas está associada à eficácia na coleta de dados em alta frequência e capacidade de analisá-los extraindo informações relevantes quanto ao estado atual de um mercado, processo produtivo ou evento climático, por exemplo. Termos como Business Intelligence e Big Data têm se tornado cada vez mais populares por serem capazes de extrair dos dados conteúdo capaz de dimensionar os riscos associados a operações dos negócios agrícolas.

Pensando na classificação exposta anteriormente, temos, por exemplo, contratos futuros, opções, contratos a termo, swaps cambiais e outros instrumentos financeiros capazes de dirimir os riscos de mercado presentes na etapa de comercialização. Tais mecanismos atuam na fixação efetiva de preços (como nos mercados futuros e a termo) e no hedge cambial (como no swap). No que tange as operações de financiamento do setor, a expansão do mercado de títulos do agronegócio (como CPR, CDCA, LCA e CRA) aumenta as alternativas de captação de crédito do setor e provocam, consequentemente, a potencial diminuição do custo e/ou alongamento da dívida das companhias do setor. Da mesma forma, o gerenciamento dos custos de produção é essencial para mitigação dos riscos financeiros.

Quanto aos riscos operacionais, a forma mais eficiente de reduzi-los consiste na boa gestão interna dos processos produtivos, desde políticas de segurança para atuação dos funcionários e manutenção preventiva de maquinários até o uso de ferramentas de análise de dados para monitoramento da qualidade e eficiência dos processos produtivos.

No entanto, são os riscos agronômicos que o setor do agronegócio tem sido pioneiro na proposição de soluções cada vez mais inovadoras e apoiadas intensivamente no uso de tecnologias. O gerenciamento do risco agronômico abrange desde técnicas tradicionais de rotação e diversificação de culturas até o uso de equipamentos de monitoramento, agricultura de precisão e desenvolvimento genético de plantas mais resistentes às condições edafoclimáticas não favoráveis. Tem-se, hoje, o uso de sistemas que permitem o acompanhamento em tempo real das condições químicas e físicas na lavoura por meio de aplicativos de smartphones, o uso de drones para aplicação de insumos e manejo de plantas daninhas, o uso de algoritmos complexos para previsão de condições climáticas, e diversas outras ferramentas que permitem mensurar as condições de solo, clima e da própria planta em prol de uma tomada de decisão mais assertiva.

Em última instância, outro mecanismo de proteção de risco pode ser utilizado: o seguro rural. Apesar de um meio de atenuar o impacto das adversidades climáticas sobre a rentabilidade do negócio por meio de indenizações, ainda não é uma prática amplamente disseminada no mercado brasileiro. Após selecionada a melhor forma de gerenciamento dessas incertezas, o monitoramento dos resultados e a busca por melhores soluções garantem a continuidade do processo de gestão dos riscos.

Vê-se hoje no agronegócio uma infinidade de soluções que buscam dirimir os impactos das variáveis de natureza incerta que atingem esse setor. O planejamento e seleção das melhores formas de gestão são fundamentais para garantir desde a segurança da performance financeira das empresas até a segurança em seus processos e integridade física dos seus colaboradores. Essas ferramentas têm usado cada vez mais da tecnologia para auxiliar a tomada de decisão relativa a todas as categorias de risco as quais o agronegócio está exposto.

Artigo escrito por Haroldo Torres, economista, professor da Plataforma Solution e gestor de projetos do Pecege, Beatriz Ferreira e Lucas Rodrigues, ambos analistas econômicos do Pecege.

Lucro visível. Prejuízo invisível

Há algumas semanas, no artigo “Produzir cana é rentável? Uma visão do produtor”, divulguei os primeiros resultados apurados pelo Pecege – em parceria com a Orplana e CNA – a respeito dos custos e da rentabilidade de produção de cana por produtores independentes, evidenciando, na safra 2018/19, um prejuízo médio -R$ 25/t.

Considerando esse patamar de prejuízo – que a propósito, não é novidade, afinal, se analisarmos a última década, com exceção das safras 2011/12 e 2016/17, em todas o produtor teve prejuízo econômico – a pergunta “a la” chamada de “Globo Repórter” que fica é: porque ainda vejo produtores de cana? como eles não “quebram”? Um questionamento, inclusive, que muitas vezes incomoda os próprios produtores de cana, afinal: “os meninos do Pecege estão falando que cana dá prejuízo, mas minha conta está no azul. Como pode?”.

Para entender um pouco melhor o “modo de sobrevivência” do produtor, vamos analisar a decomposição dos custos de produção, ilustrados na figura abaixo.

Decomposição dos custos

De forma a melhorar o entendimento das informações, deixei um pouco de lado a metodologia clássica do COE, COT, CT do Matsunaga et al. (1976) e optei por apresentar as informações de maneira mais didática, segmentando em duas visões, cujos termos são sugestivos, custos visível e invisível.

Os custos visíveis são aqueles que o produtor efetivamente “vê” saindo do seu fluxo de caixa, sendo: formação do canavial (plantio), tratos soca, colheita e administrativo. Ou seja, despesas que cutucam sua bancária, tiram seu sono, fazem com que eles tenham uma lista de cotações e por aí vai.

Pois bem, juntas e feitas as devidas amortizações no ciclo de produção, esses custos visíveis totalizaram, em média, na safra 2018/19, R$ 76/t. Se consideramos que o preço médio recebido pela tonelada, considerando o CONSECANA-SP, foi de R$ 79/t, o produtor obteve lucro operacional e, sim, viu dinheiro na conta. Um lucro visível de R$ 3/t.

Essa análise cabe a um produtor que produz cana em área própria (vou deixar grifado, itálico, negrito, sublinhado, porque é muito importante esse ponto) e que não sente efetivamente o peso do arrendamento no fluxo de caixa. Porém, ainda que não haja saída direta de dinheiro da “conta bancária”, existe o custo de oportunidade da terra, afinal, se o produtor não estivesse produzindo, ele poderia estar arrendando a área.

É neste momento que se inicia a contabilização dos custos invisíveis que, como o termo sugere e para fins de análise de viabilidade, existem, mas o produtor não vê saindo efetivamente da conta. No caso da terra, o valor médio estimado é de R$ 20/t, o equivalente aos tratos culturais da soqueira.

Custos

Evidente que se a produção é realizada em área arrendada, o custo deixa de ser invisível e passa a ser visível, respeitando, evidentemente, a proporção “área própria/área arrendada”. E, dependendo da região que estiver, “bota” visível nisso. O “cinturão Preto” da cana por exemplo, que compreende os entornos de Ribeirão Preto – Rio Preto, apresenta como referencial de arrendamento quantidades no patamar de 25 a 30 t/ha pagos em contratos de parceria agrícola.

Agora, raciocine comigo: considerando que a produtividade média nessas regiões está na casa dos 75 a 80 t/ha, será que comprometer cerca de 35% da produção apenas com o arrendamento viabiliza a produção (se você ficou com dúvida, dividi a produtividade pelo arrendamento)? Será que sobra para pagar plantio, tratos e colheita? É claro que não! Por isso que muitos produtores que trabalhavam sob arrendamento acabaram entregando áreas e/ou quebrando. Mas o tema “arrendamento” é pauta para outro artigo. Vamos voltar aos custos invisíveis.

Na mesma linha de raciocínio da “oportunidade” da terra, temos os custos relacionados ao capital. Posto de outra forma, se o produtor não estiver utilizando o dinheiro para produzir cana, o recurso poderia estar aplicado e sujeito, portanto, a uma taxa de juros. Ou seja, um custo que não sai da conta, mas existe.

Evidente que esta situação é válida no caso da utilização de recursos próprios. Caso ele recorra a linhas de crédito, os custos passam a ser visíveis. E, diga-se de passagem, uma visibilidade cada vez mais notável, tendo em vista a inadimplência setorial e taxas mais agressivas quando comparado a um passado recente.

Por fim, temos os custos com depreciação do maquinário, um aspecto raramente levado em conta na apuração de custos. Infelizmente o sujeito só enxerga o investimento inicial e as parcelas associadas, negligenciado a desvalorização do bem. Com isso, de maneira indireta, o custo de produção é onerado, em média, R$ 2/t. E estamos falando aqui de produtores que terceirizam as operações de plantio e colheita.

Visível ou invisível?

Agora, trace um paralelo para aqueles produtores que possuem frota própria para estes estágios. O custo é bem maior! Na verdade, essa “miopia” a respeito da desvalorização, lamentavelmente, faz parte da cultura brasileira. O mercado de automóveis que o diga. Em geral as contas são feitas apenas em cima da entrada, parcela e custo com combustível. Planejar os custos contabilizando manutenção e desvalorização do bem passa longe da realidade.

Considerando os três fatores invisíveis, temos R$ 28/t que, se somados aos custos visíveis, totalizam um custo total de produção de R$ 104/t e, quando relacionado ao preço vigente, dá origem ao prejuízo invisível de -R$ 25/t. Ou seja, contabilmente e visivelmente, tem-se lucro. Economicamente e invisivelmente, têm se prejuízo.

É válido ressaltar ainda que para muitos produtores a “pancada” não está sendo tão grande, pois existem práticas alternativas de remuneração (ex.: ATR fixo + isenção de colheita), haja visto a defasagem CONSECANA, que no fim, vem se tornando um balizador das negociações. Inclusive, é justamente neste sentido que a diretriz da última revisão do modelo vem trabalhando, estabelecendo como mantra a meritocracia entre os envolvidos.

No resumo, a mensagem que fica é de atenção! Produtor que não controla custos e analisa somente fluxo de caixa é igual diabético que não se cuida e corre atrás somente quando dá “algum pau”. Se der tempo, maravilha. O problema é que em muitos casos não dá. Em uma atividade que não se detêm controle de preços, estar atento aos custos e ao fluxo de caixa é de suma importância para saúde financeira da atividade.

João Rosa (Botão) é professor do Pecege e idealizador do canal do Youtube Botão do Excel.

Pecuária do futuro: gestão da informação

Que o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, todos já sabem, assim como do potencial de crescimento agropecuário que o país pode atingir. A agricultura, desde a década de 90, vem mostrando anos após ano, com emprego de tecnologia no campo, essa capacidade de atender a demanda mundial por mais alimento e cada vez mais barato.   

A pecuária, por sua vez, nos últimos 10, 15 anos começou a passar por grandes transformações estruturais em toda a cadeia, desde a cadeia de insumos, com a concentração e internacionalização das empresas, passando também por profissionalização da indústria frigorífica e também mudanças na demanda do consumidor.

Um dos principais elos, o dentro da porteira, não ficou de lado, vem correndo atrás para conseguir acompanhar a maior competitividade pelos fatores de produção (terra, capital e mão-de-obra), assim como produzir mais carne num espaço curto de tempo e em menos área.

Atualmente, esse é o grande desafio do setor, o elo produtivo na fazenda. Como produzir mais com menos, num ambiente cada vez mais acirrado por competição de área, custos em alta e pressão por qualidade, segurança alimentar e riscos de preços?

A resposta para esse questionamento se chama gestão. Simples assim? Não! Mas o pecuarista que não possuir um gerenciamento de toda a atividade será passado cada vez mais para trás e verá seu patrimônio depreciar, isso se não acabar. Isso porque em um ambiente altamente competitivo a rentabilidade da atividade ocorre, na maior parte do tempo, pelo aumento de produtividade, e não apenas pelas altas de preços.

A gestão de uma empresa pecuária não é simples. Estamos falando de uma atividade com investimentos de longo prazo e que, dependendo do sistema empregado na fazenda, pode não ter receitas num curto período. Assim, pode necessitar que, além de planejamento e gestão, o pecuarista possua capital de giro e caixa para momentos de dificuldade.

Além disso, o planejamento precisa ser estruturado em quatro grandes pilares: produção, comercialização, financeiro e recursos humanos. O primeiro, produção, se torna mais palpável e claro para o produtor devido aos resultados serem nítidos aos seus olhos. Ou seja, investimentos em genética, pastagem, alimentação e bom manejo sanitário, trazem resultados em curto e médio-prazos, com aumento de produção e melhora nos índices produtivos e zootécnicos. Um ponto importante, e que se relaciona com gestão, é a necessidade de melhorar os quatro pilares conjuntamente e não apenas um ou dois deles. O sistema produtivo, quando não melhorado de forma correta e contínua, traz mais gastos ao produtor.

Os demais pilares, comercialização, financeiro e mão-de-obra, completam a gestão na forma organizacional da produção. Uma boa compra de produtos, um bom relacionamento com empresas de insumos e cliente final, assim como uma boa gestão de custos e receitas da atividade e, por fim, um alto comprometimento das pessoas que fazem a atividade acontecer, contribuem para que o sistema como um todo flua com o foco de aumentar a produtividade reduzindo custos fixos.

Todo esse processo de gestão da atividade nesses quatro pilares só dará certo se o pecuarista empresário conseguir ter em sua empresa uma gestão de informação sistemática e eficaz. Saber o que acontece realmente no dia a dia da propriedade e conseguir transformar as informações em números para a tomada de decisão é o ponto chave para a pecuária do futuro.

A intensificação da produção com novas tecnologias, o emprego de ferramentas de gestão de risco de preços, assim como o treinamento de pessoas e envolvimento delas na produção, são fundamentais. No entanto, nada disso trará resultados positivos se o pecuarista não conhecer a fundo sua atividade, sua empresa e conseguir fazer com a informação flua de forma trazer os resultados esperados.

A capacidade do Brasil de aumentar a produção de carne fica evidente pela disponibilidade de fatores de produção, além de clima, e também pelos baixos índices zootécnicos. A grande chave para que o país assuma de vez esse papel e faça a pecuária do futuro com uso eficiente dos fatores passa pelo maior conhecimento da atividade e uma gestão eficiente desses fatores, mas também da informação que eles geram.

*Thiago Bernardino é professor do curso de Gestão e Custos da Cadeia de Pecuária de Corte da Plataforma Solution