Lucro visível. Prejuízo invisível

Há algumas semanas, no artigo “Produzir cana é rentável? Uma visão do produtor”, divulguei os primeiros resultados apurados pelo Pecege – em parceria com a Orplana e CNA – a respeito dos custos e da rentabilidade de produção de cana por produtores independentes, evidenciando, na safra 2018/19, um prejuízo médio -R$ 25/t.

Considerando esse patamar de prejuízo – que a propósito, não é novidade, afinal, se analisarmos a última década, com exceção das safras 2011/12 e 2016/17, em todas o produtor teve prejuízo econômico – a pergunta “a la” chamada de “Globo Repórter” que fica é: porque ainda vejo produtores de cana? como eles não “quebram”? Um questionamento, inclusive, que muitas vezes incomoda os próprios produtores de cana, afinal: “os meninos do Pecege estão falando que cana dá prejuízo, mas minha conta está no azul. Como pode?”.

Para entender um pouco melhor o “modo de sobrevivência” do produtor, vamos analisar a decomposição dos custos de produção, ilustrados na figura abaixo.

Decomposição dos custos

De forma a melhorar o entendimento das informações, deixei um pouco de lado a metodologia clássica do COE, COT, CT do Matsunaga et al. (1976) e optei por apresentar as informações de maneira mais didática, segmentando em duas visões, cujos termos são sugestivos, custos visível e invisível.

Os custos visíveis são aqueles que o produtor efetivamente “vê” saindo do seu fluxo de caixa, sendo: formação do canavial (plantio), tratos soca, colheita e administrativo. Ou seja, despesas que cutucam sua bancária, tiram seu sono, fazem com que eles tenham uma lista de cotações e por aí vai.

Pois bem, juntas e feitas as devidas amortizações no ciclo de produção, esses custos visíveis totalizaram, em média, na safra 2018/19, R$ 76/t. Se consideramos que o preço médio recebido pela tonelada, considerando o CONSECANA-SP, foi de R$ 79/t, o produtor obteve lucro operacional e, sim, viu dinheiro na conta. Um lucro visível de R$ 3/t.

Essa análise cabe a um produtor que produz cana em área própria (vou deixar grifado, itálico, negrito, sublinhado, porque é muito importante esse ponto) e que não sente efetivamente o peso do arrendamento no fluxo de caixa. Porém, ainda que não haja saída direta de dinheiro da “conta bancária”, existe o custo de oportunidade da terra, afinal, se o produtor não estivesse produzindo, ele poderia estar arrendando a área.

É neste momento que se inicia a contabilização dos custos invisíveis que, como o termo sugere e para fins de análise de viabilidade, existem, mas o produtor não vê saindo efetivamente da conta. No caso da terra, o valor médio estimado é de R$ 20/t, o equivalente aos tratos culturais da soqueira.

Custos

Evidente que se a produção é realizada em área arrendada, o custo deixa de ser invisível e passa a ser visível, respeitando, evidentemente, a proporção “área própria/área arrendada”. E, dependendo da região que estiver, “bota” visível nisso. O “cinturão Preto” da cana por exemplo, que compreende os entornos de Ribeirão Preto – Rio Preto, apresenta como referencial de arrendamento quantidades no patamar de 25 a 30 t/ha pagos em contratos de parceria agrícola.

Agora, raciocine comigo: considerando que a produtividade média nessas regiões está na casa dos 75 a 80 t/ha, será que comprometer cerca de 35% da produção apenas com o arrendamento viabiliza a produção (se você ficou com dúvida, dividi a produtividade pelo arrendamento)? Será que sobra para pagar plantio, tratos e colheita? É claro que não! Por isso que muitos produtores que trabalhavam sob arrendamento acabaram entregando áreas e/ou quebrando. Mas o tema “arrendamento” é pauta para outro artigo. Vamos voltar aos custos invisíveis.

Na mesma linha de raciocínio da “oportunidade” da terra, temos os custos relacionados ao capital. Posto de outra forma, se o produtor não estiver utilizando o dinheiro para produzir cana, o recurso poderia estar aplicado e sujeito, portanto, a uma taxa de juros. Ou seja, um custo que não sai da conta, mas existe.

Evidente que esta situação é válida no caso da utilização de recursos próprios. Caso ele recorra a linhas de crédito, os custos passam a ser visíveis. E, diga-se de passagem, uma visibilidade cada vez mais notável, tendo em vista a inadimplência setorial e taxas mais agressivas quando comparado a um passado recente.

Por fim, temos os custos com depreciação do maquinário, um aspecto raramente levado em conta na apuração de custos. Infelizmente o sujeito só enxerga o investimento inicial e as parcelas associadas, negligenciado a desvalorização do bem. Com isso, de maneira indireta, o custo de produção é onerado, em média, R$ 2/t. E estamos falando aqui de produtores que terceirizam as operações de plantio e colheita.

Visível ou invisível?

Agora, trace um paralelo para aqueles produtores que possuem frota própria para estes estágios. O custo é bem maior! Na verdade, essa “miopia” a respeito da desvalorização, lamentavelmente, faz parte da cultura brasileira. O mercado de automóveis que o diga. Em geral as contas são feitas apenas em cima da entrada, parcela e custo com combustível. Planejar os custos contabilizando manutenção e desvalorização do bem passa longe da realidade.

Considerando os três fatores invisíveis, temos R$ 28/t que, se somados aos custos visíveis, totalizam um custo total de produção de R$ 104/t e, quando relacionado ao preço vigente, dá origem ao prejuízo invisível de -R$ 25/t. Ou seja, contabilmente e visivelmente, tem-se lucro. Economicamente e invisivelmente, têm se prejuízo.

É válido ressaltar ainda que para muitos produtores a “pancada” não está sendo tão grande, pois existem práticas alternativas de remuneração (ex.: ATR fixo + isenção de colheita), haja visto a defasagem CONSECANA, que no fim, vem se tornando um balizador das negociações. Inclusive, é justamente neste sentido que a diretriz da última revisão do modelo vem trabalhando, estabelecendo como mantra a meritocracia entre os envolvidos.

No resumo, a mensagem que fica é de atenção! Produtor que não controla custos e analisa somente fluxo de caixa é igual diabético que não se cuida e corre atrás somente quando dá “algum pau”. Se der tempo, maravilha. O problema é que em muitos casos não dá. Em uma atividade que não se detêm controle de preços, estar atento aos custos e ao fluxo de caixa é de suma importância para saúde financeira da atividade.

João Rosa (Botão) é professor do Pecege e idealizador do canal do Youtube Botão do Excel.