O fim do Excel?

Participo de alguns fóruns de discussão relacionados a Excel e, vez ou outra (aparentemente uma vez por ano, ainda estou tentando definir um padrão), aparecem os artigos “raposa cuidando do galinheiro” relacionados à ferramenta. Longas resenhas deturpando algumas aplicabilidades do programa, intensificando os aspectos negativos, prevendo seu fim e, lógico, oferecendo soluções prontas. Primeiro ponto, minhas queridas “raposas Nostradamus”, aí vai um toque que aprendi com meu pai: “não fale que o peixe do vizinho é ruim. Fale que o seu é bom!”. Querer promover o seu falando mal do outro é feio. Seja o Excel ou qualquer concorrente. Soa como recalque. Aí não pode “né, miga”. “Beijinho no ombro” para vocês.

Segundo ponto: concordo, parcialmente, com diversos tópicos que vocês elencam. Trabalhos compartilhados e segurança operacional, realmente se mostram um desafio ao se trabalhar com o “X”. Um desafio, diremos, exponencial à medida que se aumenta o volume de informações e usuários envolvidos. Situações menos triviais, por exemplo, quando se trabalha com softwares prontos.

Analisando os problemas, vamos perceber que a maior virtude do Excel, a versatilidade, é também sua maior fonte de pecado. Por se tratar de uma ferramenta dinâmica, flexível, meio que “pau para toda obra”, um MacGyver da gestão de diferentes nichos e atividades, não há um receituário de sua aplicabilidade. No entanto, se analisarmos mais a fundo a situação, veremos ainda que a raiz do problema não é a ferramenta em si, mas sim as “pecinhas” que a operam. Não se pode culpar o carro pelo acidente de trânsito. A responsabilidade é do motorista (evidente, quando não há falha mecânica). É a “educação” dos usuários que conta.

Fazendo o contraponto, é justamente nestes flancos que as soluções prontas atuam, estabelecendo processos e padrões, permitindo um uso compartilhado mais seguro e eficiente. Utilizando novamente da analogia dos meios de transporte (me ajuda aí e usa sua imaginação a partir deste ponto), enquanto o Excel é o carro – dinâmico, faz o trajeto que você desejar, carregando, contudo, poucas pessoas – os softwares dedicados funcionam como o metrô que, comparativamente, são mais seguros, robustos, fazem um determinado trajeto bem mais rápido e permitem que muitas pessoas utilizem.

Pois bem, quais os problemas dos “metrôs”: exigem um alto investimento – desenvolver e implantar softwares é caro! Fazem muito bem um DETERMINADO trajeto. Ou seja, são “engessados”, havendo a necessidade de adequação dos usuários a eles (aqui entra novamente a questão da “educação”, ou você acha mesmo que porque a solução é “pronta” que os usuários não vão usar errado?), além do que eventuais mudanças são complicadas e muito custosas.

Se ponderamos o contexto como um todo, vamos concluir que as soluções acabam por ser complementares. Neste sentido, o que se deve evitar é a propagação de contextos análogos. Uma coisa não necessariamente exclui a outra. Os recursos devem ser utilizados de forma integrada, explorando as simbioses das ferramentas de modo a melhorar a eficiência do processo como um todo.

Para empresas ou processos relativamente grandes, com uma certa complexidade e que envolvem diversos segmentos e usuários, é provável que o Excel realmente não seja a melhor solução para a rotina. Porém, promover um “caça às bruxas” às planilhas também não é o caminho, afinal, o software escolhido não está e nunca estará pronto. Os processos evoluem, as análises mudam e, consequentemente, a ferramenta precisa se adequar. É nestes casos, por exemplo, que o Excel se mostra extremamente útil, funcionando como um laboratório de baixo custo, uma cobaia. É perfeitamente possível estabelecer o raciocínio nas planilhas e, depois que estiver consolidado, migrar o mesmo para a ferramenta pronta.

Portanto, vamos parar com esse negócio de versus. Não é “x”, é “+”. Parece papinho de autoajuda, mas é verdade. E aproveitando a deixa, esta linha de raciocínio “não binária” deve ser endógena também, digo, entre as próprias soluções da Microsoft. Tem muita gente questionando a perpetuidade do Excel com a popularização do Power BI. Uma senhora bobagem. Mas isso é papo para outro artigo.

Vida longa ao Excel! E se o software “raposa Nostradamus” for eficiente e estiver agradando seus clientes, vida longa para ele também.

Botão (João Rosa) é professor da plataforma Solution e youtuber no canal Botão do Excel.