Produtor de açúcar, não de cana

Independente da natureza do custo, se é energético, monetário ou qualquer expressão que for, ou então, se estamos falando de uma bala ou de uma nave espacial, uma coisa é certa: deseja-se conhecer quantas unidades dos fatores de produção foram alocadas a cada unidade do produto, expressando, portanto, o custo unitário.

Apesar da obviedade do indicador, o conceito não é aplicado integralmente no setor sucroenergético, em especial na parte agrícola. É comum (quase que universal) a apresentação de indicadores utilizando a quantidade de cana-de-açúcar produzida como referência de produto final. Indicadores técnicos como, produtividade e ganhos/perdas relacionadas, em geral, são apresentados em toneladas por hectare (t/ha). Custos de produção em unidades monetárias em função da tonelada produzida, como R$ ou US$/t. E por aí vai.

Pois bem, se analisarmos os aspectos econômicos da produção, em especial a remuneração da matéria-prima ao produtor, ela é realizada em função da quantidade de açúcar extraída da cana, o tal do ATR (açúcar total recuperável), expresso em kg por tonelada de cana. Ou seja, na verdade o produto final é dado “kg ATR” e não tonelada de cana, sendo, portanto, a unidade mais indicada para a avaliação de parâmetros.

Apesar de parecer um preciosismo acadêmico, a associação correta das unidades é fundamental para que as análises e, consequentemente, as tomadas de decisão sejam consistentes, evitando interpretações errôneas. Talvez o exemplo a seguir evidencie de forma mais didática a linha de raciocínio a que me refiro, onde é comparada a eficiência em termos de custos de produção de dois produtores, sob três óticas.

A primeira, “R$/ha”, expressa a quantidade de recurso alocada para cada unidade hectare em produção. Nesta visão, o produtor “A” é mais eficiente, pois tem um menor custo de produção. Uma análise sem sentido, já que a competitividade depende de quanto será produzido na área, dando origem ao indicador em “R$/t”. Tal aspecto é importante para evidenciar que o “caro é relativo”.

Por exemplo, tendo conhecimento que R$ 1.650/hectare é um valor de referência médio para tratos culturais de cana soca, é possível afirmar que um produtor que investe R$ 2.300/hectare no mesmo estágio de produção é louco? Não! Tudo depende de quanto ele irá produzir na área. Ou seja, não existe insumo ou fator de produção caro, o que se deve analisar, como qualquer outro investimento, é a relação benefício custo.

Relação que não foi vantajosa para o produtor “B”, já que apesar de uma produtividade maior, o seu custo de produção, mesmo em “R$/t”, segue superior ao produtor “A”. Bom, se tomarmos esta análise clássica, o raciocínio está correto e o assunto encerrado: o produtor “A” é mais eficiente em termos de custos do que o produtor “B”.

É aqui que entra o último elemento: a qualidade da cana relacionada à produtividade. Dentro do pacote tecnológico mais “caro” adotado pelo produtor “B”, parte dos recursos visava, além da produtividade física, o teor de ATR. Essa relação origina o custo em “R$/kg ATR” – este sim o produto final do processo – de modo que, finalmente, sob esta ótica o produtor “B” é o mais eficiente.

Portanto, o objetivo de quem se propõe a produzir cana é extrair a maior quantidade de açúcar (e não de cana!) por área em produção, ou seja, a produtividade agrícola expressa em t ATR/ha. E claro, com custos atrativos. Afinal, alta produtividade não é sinônimo de custo de produção baixo!

Botão (João Rosa) é professor da plataforma Solution e youtuber no canal Botão do Excel.