Dica Miojo e Dica Costela

Você já parou para pensar (ou recordar, depende da sua idade) de como era o acesso às informações/conhecimento no início dos anos 2000? Se sua intenção era se informar/aprender, suas alternativas provavelmente se concentravam em televisão, rádio, materiais escritos (livros, apostilas, revistas, jornais, etc…) e, quando possível, cursos presenciais dedicados à temática.

Um cenário que mudou drasticamente depois da popularização da internet, dos smartphones e das redes sociais a partir do meio dos anos 2000. Fundamentado em conectividade, o contexto permitiu (e permite cada vez mais) acesso ágil e amplo as informações e conteúdo. Mas não somente o acesso foi massificado, como também a democratização da geração de conteúdo. Se antes para expor seu ponto vista, suas opiniões e seus materiais o indivíduo precisava ter um certo renome ou recursos financeiros, hoje fazê-lo faz parte do cotidiano.

Deixando um pouco de lado alguns comportamentos nas plataformas (destaco os usuários e não as plataformas em si), como as fake news, as jihads políticas e as “vidinhas meramente ilustrativas”, tem muita coisa informativa e interessante na rede. O YouTube por exemplo, além da MTV dos tempos modernos, do divã de todos, se tornou o manual de instrução do mundo, com disponibilização de tutoriais e conteúdo de praticamente tudo.

Essa geração colaborativa de conteúdo não tem forma, com padrões e estereótipos estabelecidos. Basicamente, cada um faz da maneira que deseja. É neste sentido que muitas críticas são geradas. Vou dar um exemplo que acontece no meu meio, mas que deve ser comum em diversos segmentos. Dado que parte de minhas atividades profissionais é voltada ao Excel, participo de alguns fóruns de discussão dedicados, sendo que uma temática recorrente, gerando, inclusive, “faíscas” entre os participantes, é a tal da “dica miojo”.

O termo estabelece de forma cômica uma analogia entre os tutoriais de curta duração e os macarrões instantâneos. A crítica concerne justamente no lema “pronto em 3 minutos”, de modo que a argumentação se dá ao fato do conteúdo ser pontual, não “sustentando” quem consome, negligenciando o potencial da ferramenta. Uma consideração válida, mas não soberana, afinal, depende de quem consome. Por exemplo, você disponibilizaria de macarrão instantâneo como dieta básica de uma criança? É provável que não, afinal, apesar de “matar a fome”, tal mantimento é desprovido de nutrientes importantes para formação do indivíduo. Agora, qual o problema de um sujeito já mais formado consumir um desses alimentos práticos, pontuais, uma vez ou outra?

Aplicando este paralelo ao Excel ou qualquer ferramenta/temática que você desejar, podemos assumir que a lógica é verdadeira. Se você é um usuário inicial, haverá agregação de valor ao consumir “dicas miojo”? É provável que sim, dado que qualquer forma de conhecimento é válida. Essa compreensão, entretanto, tende a ser efêmera e isolada, não permitindo enxergar sua aplicabilidade no contexto, limitando, consequentemente, o potencial da ferramenta como um todo. Portanto, se você é uma “criança” na temática, a recomendação é que você consuma inicialmente conteúdos parrudos, possibilitando a formação de uma base sólida.

Agora, se você já tem uma certa instrução no tema em questão, pode consumir “miojo” sem qualquer prescrição. Ninguém merece ficar assistindo “dicas costelas” – que seguindo a mesma linha de raciocínio, demora 3 horas para ficar pronta – quando se deseja consumir ou compreender conteúdos pontuais. Não é necessário percorrer todos os corredores de um supermercado quando precisa-se comprar apenas um produto.

Na verdade, não existe “Dica Miojo x Dica Costela”. É “Dica Miojo + Dica Costela”. Ambas são formas de conhecimento e que se integradas, permitem a potencialização do aprendizado. Esta integração está inserida em um contexto ainda maior, que é a customização do conhecimento. Somos singulares, com velocidades de aprendizado e formas individuais de absorção conteúdo. Simplesmente não existe “receita de bolo”, cada um aprende de uma maneira, de modo que diferentes formatos são extremamente desejáveis.

Portanto, independente da “culinária do conhecimento” que você adota para compartilhar seus materiais, continue. A natureza da ação é o que vale. E evidente, espere críticas e resistência. Jesus Cristo, Buda, Gandhi e qualquer outro sofreram resistência. Não é com você que será diferente. Já diria Aristóteles: “Há apenas uma maneira de não receber críticas, não faça nada, não diga nada, não seja nada”.

Por fim, assim como cada um escolhe o restaurante e o que vai comer, com conteúdo é a mesma história. Exceto as propagandas (e que na maioria das vezes podem ser puladas), ninguém é obrigado a assistir ou consumir conteúdos de forma forçada, trata-se de uma escolha. Esse é o grande barato das plataformas modernas, um grande “à la carte” do conhecimento. Não tenha dúvidas que se o conteúdo for bom e válido, ele será consumido. É aqui que está a diferença na democratização do conteúdo, havendo um hiato entre falar e ser ouvido.

Botão (João Rosa) é professor da plataforma Solution e youtuber no canal Botão do Excel.

Agricultura e Meio Ambiente: ninguém solta a mão de ninguém

A possibilidade de fusão entre os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente causou repercussão nos noticiários e redes sociais, com manifestações, em maioria, contrárias à união das áreas. Uma reação mais do que esperada ou você acreditava mesmo que os “produtores rurais desmatadores capitalistas” iam se unir numa boa com a “turma do abraça árvore que acha que dá pra alimentar o mundo com horta de fundo de quintal e cocô de vaca”?

Por mais que pareçam absurdas, as rotulações ridículas e ideológicas são mais do que comuns, por ambos os lados, quando a temática é produção agrícola e preservação ambiental. E é justamente este o ponto evidenciado pela possibilidade de fusão, “lados”. Simplesmente não deve haver lados. Agricultura e Meio Ambiente não são rivais, são aliados. Como mencionou Xico Graziano, “sai o produzir x preservar, entra o produzir + preservar. Somar, não dividir”. Produção e preservação estão integrados, é a base da sustentabilidade. É atender as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem às suas necessidades e aspirações, conforme definição do termo.

A oportunidade de fusão abriu espaço para redução da rivalidade e sobreposição da técnica à ideologia. Juntos, são mais fortes. É aplicar o “ninguém solta a mão de ninguém” à produção de alimentos. Uma mão a produção, outra a preservação. Hoje, elas já estão dadas e basta olhar as estatísticas setoriais de produção de alimentos e conservação ambiental para confirmar. Vamos cuidar para que esse “aperto de mão” fique cada vez mais firme, levando a ações cada vez mais integradas e ágeis, conduzindo ao progresso e crescimento sustentável.

No fim, não importa se serão fundidos um, dois, dez ministérios. O que deve se buscar é a discussão do tema de forma ponderada, buscando o equilíbrio e agilidade nas ações. A pauta “meio ambiente” é transversal às atividades. Todos os ministérios com mais ou menos intensidade, tem responsabilidade por questões ambientais. Inclusive, este foi o motivo do governo eleito não ter fundido as pastas, pois temáticas como infraestrutura, mineração e petróleo, por exemplo, não são abrangidas diretamente pela agricultura.

Agora uma coisa que podia acabar é o pleonasmo “meio ambiente”. Afinal, como diria o saudoso Prof. Caetano Ripoli, que tive o prazer de ser orientado, “você conhece algum meio que não é ambiente ou algum ambiente que não é meio”.

Botão (João Rosa) é professor da plataforma Solution e youtuber no canal Botão do Excel.