A gestão de riscos no agronegócio

O Brasil vive um momento único, ao longo da sua trajetória econômica recente, configurando o ano de 2019 como um período de transição. Esse ponto de inflexão reflete a retomada do crescimento econômico, o aumento da confiança do consumidor e da indústria, a redução do risco país, a redução dos níveis da taxa de juros e da inflação e, consequentemente, a recuperação do mercado de capitais.

Neste contexto, é importante mencionar o papel do agronegócio brasileiro, enquanto catalisador do crescimento econômico do país. Este setor representou, em 2018, cerca de 21,1% do PIB nacional, ocasião em respondeu por quase 1,4 trilhões de reais (CEPEA, 2019). Adicionalmente, contribuiu com a geração de quase US$ 100 bilhões de divisas ao país, respondendo por 42% da pauta de exportação. O Brasil agrícola é uma potência, sendo um dos principais players no mercado global de commodities agrícolas, com destaque para açúcar, suco de laranja, proteína animal, milho e soja.

Essa expressividade da agroindústria brasileira foi pautada, ao longo dos anos, pelos avanços tecnológicos, mudanças nos processos e na infraestrutura. Espera-se que a evolução do setor se intensifique ainda mais com as grandes oportunidades que se formarão nos próximos anos, principalmente, relacionadas à tecnologia e como ela moldará a paisagem dos negócios agrícolas. Estamos na iminência de uma nova revolução: a Agricultura Digital ou Agro Inteligência, na qual a ciência dos dados e o mundo digital alavancarão a eficiência no campo, aumentando a produtividade e diminuindo a utilização dos recursos naturais. Com o melhor monitoramento do tempo e uma maior precisão nas práticas agrícolas, a tendência é a de que a produtividade alcance novos patamares.

No momento atual, o agronegócio brasileiro, de forma similar à economia brasileira, depara-se com um momento decisivo. No entanto, o sucesso que nos trouxe até aqui, não será o mesmo para o novo ciclo, cabendo a superação de uma série de desafios. Apesar dos enormes avanços tecnológicos, os desafios para o agronegócio brasileiro envolvem, substancialmente, três pilares. O primeiro é a agregação de valor e diversificação, de forma a responder às expectativas de uma sociedade cada vez mais exigente, bem como atender aos mercados mais sofisticados, competitivos e rentáveis. O segundo compreende a intensificação da produção de forma segura, considerando alguns aspectos, tais como, elevação da produtividade e da qualidade com tecnologias de baixo impacto e redução das emissões de gases de efeito estufa. O terceiro se relaciona à gestão dos riscos inerentes à atividade econômica em questão. O agronegócio, além de estar sujeito ao risco sistêmico – isto é, comum a toda economia brasileira – apresenta uma gama considerável de riscos específicos. É justamente sobre esse último grupo que o setor deve dispender esforços para mitigação.

Esse processo passa pelo entendimento do próprio conceito de risco. Qualquer evento incerto que possa impactar um negócio e, ao qual é associado uma probabilidade de ocorrência, é considerado um fator de risco. Entende-se, portanto, o risco como incerteza. É fácil notar que o agronegócio está sujeito a fatores de risco das mais variadas fontes, tanto sistêmicas, quanto relacionadas aos fatores climáticos, agronômicos, de mercado (oferta e demanda de commodities) e de liquidez.

A sustentabilidade do setor está intrinsecamente relacionada à previsibilidade de rentabilidade. São as perspectivas de custos, produção, receitas e fontes de financiamento que pautam as tomadas de decisões do negócio. E, nesse sentido, a atenuação do risco se faz necessária. A forma de implementação da tão almejada mitigação de risco é por meio do serviço de gestão de risco, cujas etapas passam pela identificação, classificação, avaliação, tratamento dos riscos e monitoramento das soluções. Tais etapas são sistematizadas na figura abaixo:

A primeira etapa compreende a identificação dos riscos associados ao negócio. Isto é equivalente a identificar qualquer fator cujo resultado será totalmente ou parcialmente incerto independentemente da forma de gestão dos recursos e qualquer boa prática que se vier a implementar na empresa. Ou seja, de forma mais técnica, fatores de riscos são todos aqueles cuja a ocorrência provém de um evento estocástico (ou aleatório).

A segunda etapa consiste na classificação dos riscos identificados para melhor avaliar seus impactos para o negócio e as possíveis soluções de gerenciamento. No agronegócio, podemos agrupar os riscos dentre as seguintes categorias: Riscos Operacionais, Agronômicos, de Mercado, Financeiros e Institucionais.

Os Riscos Operacionais são aqueles ligados ao processo produtivo e consequência da forma de gestão da empresa. Tais incertezas podem ser exemplificadas por perdas no processo produtivo – decorrentes, por exemplo, de falhas no plantio e colheita – acidentes no trabalho, problemas mecânicos em maquinários, entre outros.

Riscos Agronômicos são a exclusividade do agronegócio. Estes são os mais difíceis de prever e controlar os efeitos. Essas incertezas consistem em eventos físicos e biológicos que se traduzem em riscos climáticos e fitopatológicos que podem vir a prejudicar as condições de cultivo das culturas agrícolas e reduzir a produtividade das lavouras. É importante destacar, no entanto, que o termo risco não se refere a uma possível condição desfavorável para um processo, mas simplesmente a incerteza quanto ao seu resultado. Desta forma, eventos climáticos, por exemplo, podem trazer ganhos de produtividade para culturas e ainda sim ser classificados como riscos.

Os Riscos de Mercado, por sua vez, são aqueles associados à flutuação dos preços (decorrentes de variação na oferta e demanda de commodities) e outras variáveis econômicas que impactam, concomitantemente, os custos e as receitas dos negócios. Tais variáveis incluem, dentre outras, a taxa de juros, a taxa de câmbio e o crescimento da renda. As incertezas enquadradas no grupo de risco de mercado têm impacto direto na categoria de Riscos Financeiros, em especial no que tange à imprevisibilidade da taxa de câmbio. Esta última categoria de riscos – os financeiros – estão relacionados à estrutura de capital e alavancagem (que determinam a sensibilidade da dívida da empresa em relação às condições de mercado), ao desempenho operacional e à liquidez.

Os Riscos Institucionais estão relacionados às alterações nas legislações, políticas fiscais, tarifárias e de juros, restrições ambientais, normas sanitárias e práticas de organismos internacionais de regulação (como a Organização Mundial do Comércio) e que podem impactar no agronegócio. Na prática, os riscos podem se manifestar como criação de novos tributos ou de leis ambientais restritivas, sanções de órgãos internacionais de regulação, represálias de países importadores, entre outros.

Após a classificação das incertezas, segue-se para a avaliação dos riscos. Nesta etapa, o que se busca fazer é avaliar os possíveis impactos das variáveis incertas nas diferentes dimensões de um negócio, por exemplo, reputação da companhia, resultados financeiros, bem-estar social dos funcionários, entre outros. Essa etapa deve levar a priorização de esforços para a gestão daqueles riscos com maior probabilidade de impacto negativo à empresa. A avaliação pode ser conduzida utilizando ferramentas qualitativas, como análise SWOT ou 5W2H, como também técnicas quantitativas baseadas em probabilidades e métodos estatísticos.

A última etapa compreende o tratamento dos riscos. Dada a ordem de prioridades determinada na etapa anterior, duas principais perguntas devem ser respondidas: (i) Quais as formas possíveis de gestão deste risco?; (ii) Qual o custo de implementação e monitoramento desse mecanismo de gerenciamento?

Tão importante quanto avaliar o efeito de uma variável incerta é estimar o custo de gerenciamento para minimização dos seus impactos. A priorização inicial deve ser alterada caso perceba-se que o custo de gerenciamento supera o retorno esperado do controle do risco. Portanto, a fórmula final é simples: priorize gerenciar os riscos com maior impacto para o negócio cujo mecanismo de controle seja o mais barato possível.

Claro que, na prática, nada é tão simples. É necessário, muitas vezes, conhecimentos técnicos e da dinâmica do negócio para que a melhor decisão seja tomada. No agronegócio, diversas ferramentas e tecnologias vêm sendo aplicadas para gestão das variáveis incertas que afetam desde o cultivo até a comercialização dos produtos agrícolas. De forma geral, a efetividade do uso dessas ferramentas está associada à eficácia na coleta de dados em alta frequência e capacidade de analisá-los extraindo informações relevantes quanto ao estado atual de um mercado, processo produtivo ou evento climático, por exemplo. Termos como Business Intelligence e Big Data têm se tornado cada vez mais populares por serem capazes de extrair dos dados conteúdo capaz de dimensionar os riscos associados a operações dos negócios agrícolas.

Pensando na classificação exposta anteriormente, temos, por exemplo, contratos futuros, opções, contratos a termo, swaps cambiais e outros instrumentos financeiros capazes de dirimir os riscos de mercado presentes na etapa de comercialização. Tais mecanismos atuam na fixação efetiva de preços (como nos mercados futuros e a termo) e no hedge cambial (como no swap). No que tange as operações de financiamento do setor, a expansão do mercado de títulos do agronegócio (como CPR, CDCA, LCA e CRA) aumenta as alternativas de captação de crédito do setor e provocam, consequentemente, a potencial diminuição do custo e/ou alongamento da dívida das companhias do setor. Da mesma forma, o gerenciamento dos custos de produção é essencial para mitigação dos riscos financeiros.

Quanto aos riscos operacionais, a forma mais eficiente de reduzi-los consiste na boa gestão interna dos processos produtivos, desde políticas de segurança para atuação dos funcionários e manutenção preventiva de maquinários até o uso de ferramentas de análise de dados para monitoramento da qualidade e eficiência dos processos produtivos.

No entanto, são os riscos agronômicos que o setor do agronegócio tem sido pioneiro na proposição de soluções cada vez mais inovadoras e apoiadas intensivamente no uso de tecnologias. O gerenciamento do risco agronômico abrange desde técnicas tradicionais de rotação e diversificação de culturas até o uso de equipamentos de monitoramento, agricultura de precisão e desenvolvimento genético de plantas mais resistentes às condições edafoclimáticas não favoráveis. Tem-se, hoje, o uso de sistemas que permitem o acompanhamento em tempo real das condições químicas e físicas na lavoura por meio de aplicativos de smartphones, o uso de drones para aplicação de insumos e manejo de plantas daninhas, o uso de algoritmos complexos para previsão de condições climáticas, e diversas outras ferramentas que permitem mensurar as condições de solo, clima e da própria planta em prol de uma tomada de decisão mais assertiva.

Em última instância, outro mecanismo de proteção de risco pode ser utilizado: o seguro rural. Apesar de um meio de atenuar o impacto das adversidades climáticas sobre a rentabilidade do negócio por meio de indenizações, ainda não é uma prática amplamente disseminada no mercado brasileiro. Após selecionada a melhor forma de gerenciamento dessas incertezas, o monitoramento dos resultados e a busca por melhores soluções garantem a continuidade do processo de gestão dos riscos.

Vê-se hoje no agronegócio uma infinidade de soluções que buscam dirimir os impactos das variáveis de natureza incerta que atingem esse setor. O planejamento e seleção das melhores formas de gestão são fundamentais para garantir desde a segurança da performance financeira das empresas até a segurança em seus processos e integridade física dos seus colaboradores. Essas ferramentas têm usado cada vez mais da tecnologia para auxiliar a tomada de decisão relativa a todas as categorias de risco as quais o agronegócio está exposto.

Artigo escrito por Haroldo Torres, economista, professor da Plataforma Solution e gestor de projetos do Pecege, Beatriz Ferreira e Lucas Rodrigues, ambos analistas econômicos do Pecege.

Agronegócio brasileiro: uma projeção do setor em 2019

O agronegócio é um dos setores mais dinâmicos da economia brasileira em termos de produtividade, crescimento e geração de renda. Nesse âmbito, ele tem mostrado um desenvolvimento a uma taxa superior em relação a outros ramos da economia brasileira.

Segundo o professor e especialista em economia, Humberto Spolador, além de se apresentar como um setor de alta tecnologia, o agronegócio contribui para a geração de emprego e renda em outras atividades econômicas como, por exemplo, na indústria de máquinas, que tem parte de sua produção voltada para o campo ou, ainda, a indústria farmacêutica, que produz medicações e vacinas para a produção animal.

“Vimos que 2018 foi um ano difícil para o setor, mas ao observar a série histórica, existem algumas oscilações pontuais, nas quais a média de crescimento ao longo do tempo ainda seguiu superior ao crescimento médio da economia brasileira”, pontua. Em 2017, contudo, ele ressalta que a atividade agropecuária obteve um crescimento de 13%, sendo esta apenas uma das atividades que compõem o setor.

Carlos Bacha, também especializado em economia e professor de cursos voltados ao agro, indica dois pontos a serem observados no agronegócio brasileiro em 2019, sendo um de dimensão interior e o outro exterior. “O primeiro será a taxa de câmbio, que influencia na remuneração do exportador e do produtor além de pressionar a área de insumos e uma série de custos com produção. A taxa de câmbio está relativamente alta este ano”, avalia.

Política nacional

As recentes mudanças na estrutura política brasileira, com a eleição de um novo governo de direita, será um importante ponto de transformações. Bacha explica que as pressões ambientais e invasões de terras diminuirão, enquanto que a produção não estará limitada ao que é chamado de políticas de rendas.

“Portanto, se a taxa de câmbio surge como uma ameaça interna, a produção e exportação serão elevadas de forma positivas conforme os preços internacionais se mantiverem constantes”, observa.

O acadêmico indica ainda que a perspectiva para 2019 é uma redução na taxa de câmbio. Isso significa diminuição de rentabilidade para o exportador, que ganhará o um valor em dólar, mas que, convertido em reais, tem um preço relativamente mais baixo em relação a um produto vendido em melhores cotações. Esse comportamento se distribuirá ao longo da cadeia de produção do agronegócio.

“Mas devemos lembrar que o agronegócio, em uma taxa de câmbio de $ 3,40, é muito rentável. Então não teremos uma redução de ganhos no setor a não ser que os preços caiam a nível internacional”, completa.

Desempenho

Do ponto de vista interno, Bacha informa que a produção nacional será muito bem estimulada por um novo governo. “Essa administração deverá manter os estímulos atuais aos campos de pesquisa e extensão, porque a inflação não está necessariamente pressionando para que esses pontos sejam interrompidos”, comenta.

O professor adverte que a cadeia do agronegócio brasileiro envolve diversos tipos de segmentos e alguns sofrem diretamente com a cotação internacional. A atual queda do preço do açúcar e do álcool – que acompanha as quedas de preço do petróleo – dificulta o crescimento desse setor no mercado externo, por exemplo. Isso relacionado também a diminuição no consumo de seus subprodutos.

Por outro lado, o mercado de soja e celulose são os que estão em constante crescimento, devendo continuar em ascensão durante 2019 e tornando o Brasil uma referência ainda mais forte nas duas frentes. “Temos uma variação de cenários conforme a análise de cada produto justamente porque o Brasil tem uma gama bem grande de produção. Continuaremos sim a crescer nossa produção e colocar o produto brasileiro cada vez mais à disposição do consumidor externo”, conclui.

O desempenho do agronegócio dependerá ainda dos preços e de boa parte dos valores relevantes formados no mercado internacional. Além disso, os indicadores sugerem que a economia brasileira terá um melhor desempenho em 2019 comparado ao mesmo período do ano anterior. “Isso dentro de uma expectativa mais macro da economia, já que é provável que todos os setores se beneficiem dessa conjuntura”, ressalta Spolador.

Segundo as projeções do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado pelo IBGE (https://agenciadenoticias.ibge.gov.br), neste ano a produção de grãos deve ser 3,1% maior do que foi em 2018, sendo a segunda maior safra desde 1975. A maior produção de grãos registrada ocorreu em 2017.

Com papel de grande importância no comércio exterior, o agronegócio brasileiro caminha para novas dimensões. Em dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, de 30% a 40% do que o país exporta está relacionado ao setor. “Essa é outra contribuição importante do agro para o crescimento econômico do país neste ano”, finaliza o professor.

Conheça também as tecnologias para o setor de grãos em 2019 aqui.